Rações para Suínos: Análise dos Ingredientes – parte 3

Rações para Suínos – O que o farelo de soja tem a ver com seu lucro?

O farelo de soja é um alimento proteico amplamente empregado na alimentação animal, principalmente em Rações para Suínos. Trata-se do coproduto oriundo da extração do óleo da soja, processo este que tem grande influência na sua composição química.
A análise de proteína bruta (PB) é fundamental para ajuste da matriz nutricional, principalmente pelo fato desse ingrediente ter um preço elevado e ter uma inclusão significativa na maioria das formulações para suínos. Variações no nível de proteína representam alterações consideráveis no custo da tonelada de ração produzida, como podemos observar no quadro abaixo:

rações para suínos

Quadro 1: Ração Recria formulada com farelos de soja de diferentes níveis proteicos

 

Nas suinoculturas de ciclo completo, cerca de 70% dos animais da granja se encontram nesta fase. Qualquer variação de custo para estas categorias tem um grande impacto na atividade como um todo. O consumo médio de ração para um animal chegar a 105kg de peso vivo é de aproximadamente 90Kg, e 130Kg nas fases de recria e terminação, respetivamente.
A ração recria (Quadro 1) foi formulada estabelecendo-se os mesmos níveis nutricionais mínimos de energia (3250 Kcal/Kg) e lisina total (1.05%), e utilizando farelos com teores de 43, 44 e 45% de PB. Há uma diferença de R$20,00 reais por tonelada entre fórmulas utilizando-se diferentes farelos. Considerando o consumo médio de 90kg de ração para esta fase, temos uma diferença de R$ 1.80 por animal.

Fazendo formulações com os diferentes farelos para a fase de terminação, com nível de lisina total de 0.95%, temos o próximo quadro:

rações para suínos

Quadro 2: Ração Terminação formulada com farelos de soja de diferentes níveis proteicos

 

Podemos observar uma variação de R$20,00 por tonelada, utilizando um farelo com 43% em comparação a um de 44% de PB. Essa diferença aumenta para R$50,00 reais o custo da tonelada da ração, se compararmos com um farelo de 45% de PB. O uso de um farelo de 45%, ao invés de um com 44% de proteína nas rações, possibilitaria uma economia de R$2,60 por animal, apenas para a fase de terminação, sem comprometer os requerimentos nutricionais do suíno, bem como seu desempenho.
Somando esta diferença, com a obtida na fase de recria, a economia é de R$4,40 por suíno terminado. Se contabilizarmos neste cálculo todas as rações das demais categorias de animais na granja, a diferença é ainda maior!
O farelo de soja é rico em alguns aminoácidos como lisina, valina e triptofano. A disponibilidade desses aminoácidos também está relacionada ao processamento térmico sofrido pelo ingrediente. A reação de Maillard (reação química entre um aminoácido ou proteína e um carboidrato redutor, obtendo-se produtos que dão sabor, odor (flavor) e cor aos alimentos) se dá quando há excesso de processamento, geralmente na ocorrência de exposição excessiva a temperaturas elevadas. Isso causa a ligação de carboidratos e aminoácidos – principalmente a lisina -, tornando estes nutrientes indisponíveis e conferindo ao farelo de soja uma coloração mais escura (de tom castanho) que representa a reação de caramelização.

rações para suínosA soja in natura apresenta em sua composição algumas substâncias que prejudicam os processos digestivos, como inibição da digestão proteica (inibidores de tripsina e quimiotripsina); efeitos deletérios nas microvilosidades do intestino delgado (fatores alérgicos como a glicina) e influência na taxa de passagem do alimento no trato digestório (polissacarídeos não amiláceos, que abrange os grupos da celulose, polímeros não celulósicos e polisacaridios pécticos). Tais compostos prejudicam os processos digestivos, afetando a absorção de nutrientes pelos animais e, consequentemente, afetam seu desempenho produtivo.
Existem diversos métodos de tratamento térmico utilizados para inibir a ação de parte destes fatores. A combinação de temperatura e tempo de duração do processo afeta diretamente a qualidade do farelo de soja, podendo ocorrer situações de excesso de processamento ou subprocessamento.
A fim de avaliar esta qualidade, são utilizadas as análises de índice de Atividade Ureática (IAU) e Solubilidade Protéica. O IAU se baseia na ação da enzima urease na liberação de amônia. Ela é um indicador indireto da presença dos compostos antinutricionais termolábeis.
O Compêndio Brasileiro de Alimentação Animal (Sindirações 2013), estabelece o padrão máximo de 0.20 de IAU para farelo de soja. No entanto, a Agroceres Multimix não recomenda valores de IAU acima de 0,10 para suínos, principalmente para leitões, pois indicam um processamento insuficiente para desativação dos fatores antinutriconais.
Outro parâmetro de avaliação de eficiência do processo é a solubilidade proteica. Considera-se um valor mínimo ideal de 80% e máximo de 87%. Valores abaixo ou acima desta faixa indicam, respectivamente, um super ou sub processamento do farelo. Esta faixa de resultados deve estar alinhada ao valor de até 0.1 de IAU.

O nível de umidade do farelo também deve ser monitorado. Valores acima de 13% indicam excesso de água no ingrediente, o que resulta em menor concentração proteica.
Para um exemplo prático, podemos considerar um farelo de soja com um nível de 45% de Proteína Bruta e duas condições de umidade, de 12 e 13%:
• Na situação de 12% de umidade, temos 880Kg de matéria seca (MS) para 1.000Kg de farelo de soja. Multiplicando o percentual de proteína bruta por esta MS, temos 396kg de proteína na tonelada comprada;
• Na condição de 13% de umidade, temos 870Kg de MS que, ao multiplicarmos por 45%, temos 391.5Kg de proteína na tonelada de farelo de soja. Ou seja, em um farelo 45% podemos perder 4.5Kg de proteína se tivermos 1% a mais da umidade preconizada de 12%.

Como o farelo de soja é a principal fonte de proteína nas dietas, vamos dividir o custo da tonelada pelos quilos de proteína em cada nível de umidade. Pagando R$1.400,00 por tonelada de um farelo 45%, temos um custo de R$ 3,53 por Kg de proteína na umidade de 12%, e um custo de R$3,57/Kg de PB com umidade 13%. Uma diferença de 4 centavos. Isso é muito? Vamos fazer mais um cálculo:
Uma ração Suíno Lactação, possui cerca de 18% de PB. Na maior parte das formulações de campo, pelo menos 60% desta proteína vem do farelo de soja, salvo situações em que se trabalha com ingredientes como farinha de carne. Considerando ainda que a ração deve ter no máximo 13% de umidade. Dessa forma, temos 93,96Kg de proteína fornecida pelo farelo de soja em uma tonelada de ração lactação.
Multiplicando este valor pela diferença de 4 centavos, temos um custo de R$3,75 a mais por tonelada desta ração. Quantas toneladas de ração lactação por ano são consumidas em uma granja de 1.000 matrizes? A média de consumo de ração da fêmea durante uma lactação é de cerca de 120Kg. Considerando 2.5 partos ao ano, a quantidade de ração demandada para essa fase, nessa granja é de cerca de 300 toneladas no ano.
Isso representa uma diferença de R$1.125,00, caso a umidade do farelo 45% comprado seja de 13%, ao invés de 12%. Ou seja, a implicação técnica de umidade acima do padrão para este tipo de ingrediente, se refere a compra de água ao invés de proteína, o que não é vantajoso economicamente.
A fim de complementar o escopo de monitoramento da qualidade, recomenda-se a análise de microscopia, que deve ser realizada por um analista bem qualificado. Através desta análise é possível identificar a coloração escura e presença de partículas carbonizadas (que indicam o excesso de processamento, que diminuí a solubilidade da proteína), de contaminantes (como: milho, sorgo, etc.) e excessos de componentes da própria planta (como: cascas e talos) que justificam uma diminuição no teor de proteína bruta e, consequente, aumento nos valores de fibra bruta, além da diminuição do valor energético do farelo de soja.

Nutrição Animal rações para suínos

Fonte: Laboratório de Bromatologia Agroceres Multimix

Essas mesmas análises se aplicam a soja desativada, extrusada ou tostada. Por sua vez, esses ingredientes são ricos em extrato etéreo (mínimo de 18%), apresentando altos valores de energia. Essa é uma das vantagens desses ingredientes, que apresentam também maior facilidade de manipulação na fábrica de ração quando comparado a óleos e gorduras. Conforme esperado, o valor de proteína é menor (em torno de 36%).
Utilizando a soja nestas versões, é importante nos atentarmos ao período de armazenamento. Em virtude do nível elevado de óleo, o prazo de estocagem é reduzido, devido à maior facilidade natural de deterioração. A fim de verificar a qualidade da gordura presente – e também uma maneira de monitorar fornecedores -, a Análise de Índice de Peróxidos é uma boa opção. Normalmente, altos níveis indicam lotes mais velhos do ingrediente, já em processo de rancificação.
Temos que ter em mente que analisar ingredientes não custa caro. Caro é trabalharmos sem o devido conhecimento da composição das matérias-primas que usamos na fábrica. Também não basta ter a análise. Precisamos ter ações estratégicas sobre os resultados que constam nos laudos. Afinal, 70% do custo de produção de suínos (no mínimo) entra na atividade pela fábrica de ração.

Agroceres Mutimix. Muito Mais Que Nutrição.

Diana Rosana Vivian

Diana Rosana Vivian

Diana é nutricionista de suínos na Agroceres Multimix

VOCÊ TAMBÉM PODE CURTIR...

5 Comentários

  1. Raul Aguiar disse:

    Estou iniciando uma pequena criação de matrizes, disponho de uma cota de milho na Conab, o que deverá baixar bastante o custo, quais ingredientes que devo utilizar para fazer a mistura e qual percentual para 100 kgs. de ração final.

    • Olá, Raul!

      Uma boa ração é formulada com vários ingredientes, com o objetivo de atender à exigência de nutrientes do suíno, como: energia, proteína, aminoácidos, vitaminas e minerais. Essa exigência muda de acordo com a fase de produção que o animal se encontra.
      Pode-se ter fórmulas de rações utilizando basicamente milho, farelo de soja, concentrados e núcleos.
      A Agroceres Multimix tem produtos específicos para cada fase de criação. A partir da definição de qual produto se pretende utilizar, é feita uma formula de ração, na qual consta o percentual de cada ingrediente para a batida, que no seu caso é de 100 kg. Para maiores informações, entre em contato com um consultor da Agroceres Multimix, através da página “Solicite um Consultor Técnico”.

      Espero ter ajudado. Obrigada pela sua pergunta!

  2. Higor Balduino disse:

    Excelente artigo Diana, parabéns!!!

    Abraços

  3. Diego Mariano Vasconcelos disse:

    Só tenho a parabenizar a você Diana, muito importante o tema levantado no seu artigo. Abraços…

  4. Oderman Oliveira Lima disse:

    Muito esclarecedor e de suma importância na saúde financeira de uma granja. Meus parabéns Diana.
    Gosto muito dos artigos de vocês. Sinto segurança nas informações (excelente equipe técnica).
    Um grande abraço.
    Oderman O. Lima
    Zootecnista – Coopardo
    Itapetinga-Bahia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *