Escore de condição corporal como ferramenta de manejo

O período de transição, definido como o período de 3 semanas antes a 3 semanas após o parto, representa um desafio para as vacas leiteiras, pois a produção de leite e ingestão de matéria seca (IMS) aumentam dramaticamente nessa fase. As alterações metabólicas e hormonais ocorridas durante o período de transição em vacas leiteiras implicam em numerosas alterações, com efeitos diretos na saúde, produtividade e desempenho reprodutivo.

Durante o período de transição, as vacas leiteiras passam por períodos de balanço energético negativo (BEN), caracterizados por maior mobilização de reservas de energia, normalmente gorduras, para atender as demandas da alta produção de leite. As vacas leiteiras de alta produção, em média, passam por um período de BEN durante as primeiras semanas de lactação, quando as demandas de energia para a produção de leite excedem o consumo de energia obtido com a dieta. Assim, durante o início de lactação, as reservas de gordura em algumas vacas são mobilizadas na corrente sanguínea, sob a forma de ácidos graxos não esterificados (AGNE) e contribuem para as necessidades energéticas totais.

No fígado, alguns AGNE são oxidados ou reesterificados em triglicérides, que são exportados como lipoproteínas de muito baixa densidade ou armazenados. A aferição de AGNE e beta-hidroxibutirato (BHBA) pode ser realizada e utilizada como índices para avaliar o BEN ou cetose em vacas no período de transição, e a elevação excessiva de AGNE ou BHBA pode indicar problemas metabólicos. As concentrações de AGNE circulante e IMS geralmente têm uma relação inversa. Excesso de mobilização de gordura pode diminuir a capacidade do sistema imunológico, e estão associados a efeitos negativos sobre a saúde animal e desempenho produtivo. A manutenção da saúde e da produtividade durante o período de transição é um dos maiores desafios enfrentados pelos rebanhos leiteiros.

A avaliação do escore de condição corporal (ECC), é uma ferramenta de gerenciamento útil para avaliar as reservas de gordura corporal de vacas leiteiras. Os trabalhos foram desenvolvidos em animais de raça holandesa (década de 80) e, nesse sentido, temos que ter um pouco de cuidado quando avaliamos animais de outras raças, sempre sendo importante levar em consideração a curva de lactação e desempenho produtivo.

escore de condição corporal

O escore de condição corporal tem recebido considerável atenção, por se tratar de uma ferramenta de auxílio para gestão de programas nutricionais em rebanhos leiteiros. Esse sistema é baseado em avaliações visuais e táteis das reservas corporais em pontos específicos do corpo da vaca, sendo desenvolvido a partir de uma escala biológica de 1 a 5, com subunidades de 0,25 pontos, no qual: 1 representa uma vaca muito magra e 5 uma vaca muito gorda, sendo utilizado independentemente do peso corporal ou do tamanho (altura, perímetro toráxico, comprimento) de vacas leiteiras (EDMONSON et al., 1989).

O ECC de vacas no parto, o tempo de BEN e a perda de ECC no pós-parto, estão associados a diferenças na produção, reprodução e saúde devacas de leite. As vacas supercondicionadas com ECC maior que 3,25 no parto tem concentrações circulantes mais elevadas de NEFA no início da lactação, até 7 semanas após o parto, em comparação com as vacas com ECC moderado ou baixo (2,5 a 3,25), em uma escala de 1 a 5. Hiperlipidemia (excesso de mobilização de reservas corporais), por sua vez, causa resistência à insulina em vacas leiteiras, dados estes consistentes com estudos que observaram a forte relação entre alto ECC com à sensibilidade periférica à insulina em vacas em estado de lipomobilização excessiva.

Estudos têm relatado uma relação negativa entre as concentrações de AGNE com reprodução. Um estudo feito por Ospina e colaboradores publicado no Journal of Dairy Sceince (2010) demonstrou que o aumento das concentrações de AGNE durante o período de transição estava associado à diminuição da taxa de prenhez aos 70 d após o período voluntário de espera, os mesmos autores demonstraram que alto AGNE circulante está associado com diminuição na taxa de prenhes aos 21 d, avaliações estas feitas em 60 rebanhos americanos. Além disso, um terceiro estudo publicado por Garverick (Journal of Dairy Science) utilizou 156 vacas leiteiras em lactação e relatou que a probabilidade de prenhês na primeira inseminação foi diminuída à medida que as concentrações séricas de NEFA no dia 3 pós-parto aumentaram.

Vários trabalhos e dados da literatura que avaliaram efeito de ECC na reprodução demonstraram que vacas com ECC ≥2,75 apresentam melhores índices reprodutivos (avaliações feitas no momento da IA), entretanto estes trabalhos não avaliaram o ECC destes animais no pré-parto o que dificultava conclusões precisas de o que seria o ECC ideal para maximizarmos desempenho reprodutivo e diminuirmos incidência de doenças nesta fase.

Nos trabalhos publicados pelo grupo do Prof. Milo Wiltbank (Universidade de Wisconsin), demonstraram que alguns animais ganham ECC no pós-parto (dia do parto até 21 DEL). Nesse estudo, (n=1887) vacas foram divididas de acordo com a mudança de ECC do parto até a terceira semana de lactação, a P/IA diferiu drasticamente entre os tratamentos (mudança de ECC), onde o grupo de animais que perdeu ECC teve 22,8% de taxa de concepção (180/789), contra 36% (243/675) do grupo que manteve e 78,3% (331/423) do grupo que ganhou ECC neste período. Estes dados sugerem que algumas vacas são mais eficientes nos processos metabólicos envolvidos nesta fase, passando melhor assim pelo período de transição. Ainda de acordo com os dados os animais que ganharam ECC, estavam mais magras no dia do parto ECC médio de 2,8.

Dados de Barletta publicados na (Theriogenology, 2017) em experimento realizado aqui no Brasil, demostram que o escore de condição corporal no início do período de transição tem efeito na perda subsequente de ECC antes e depois do parto, e que vacas que chegam mais magras neste período geralmente tendem a manter ou ganhar ECC no período de transição (primeiras semanas de lactação). Além disso, as vacas que ganharam ECC ou mobilizaram pouca gordura nesta fase, tiveram menor concentração de AGNE e BHBA após o parto e consequentemente tiveram menos problemas de saúde, retorno mais rápido de ciclicidade e melhor fertilidade. Estes resultados são consistentes com uma maior perda de ECC durante o período de transição, sendo este um fator chave para prolongar a inibição da atividade ovariana após o parto. O atraso na primeira ovulação, a ocorrência de doenças e o BEN prolongado estão fortemente ligados a perda de ECC no período de transição, e os animais que chegam mais magros (ECC 2.75 a 3)  tem apresentado melhor desempenho e capacidade de passar por estas alterações metabólicas, o que sugere que as vacas leiteiras de alto mérito genético são fenotipicamente mais magras, o que demanda uma avaliação e ação forte dos técnicos para conseguirmos fazer que nossas vacas não cheguem muito gordas no pré-parto, nos obrigando assim a sermos muito eficiente no manejo reprodutivo e nutricional nas fazendas de leite. Monitorar ECC é uma ferramenta importante de gestão e pode nos auxiliar nas tomadas de decisão e talvez seja possível modificar o ECC durante a lactação (principalmente fase final) a fim de otimizar a saúde e reprodução em vacas leiteiras.

Sendo assim uma importante consideração para alcançarmos isto é sempre estarmos atentos ao manejo reprodutivo eficiente para emprenharmos mais cedo as vacas, assim não teríamos vacas muito tempo secas ou com DEL avançado o que poderia fazer com que estas viessem ficar muito gordas no peri-parto, fazendo assim com que a fazenda entre em ciclo vicioso de vacas gordas, muitas doenças no período de transição e baixo desempenho produtivo/reprodutivo. Outro ponto que deve ser acompanhado de perto pelo técnico é o manejo nutricional, para otimizarmos a produção de leite e cuidarmos ou ajustarmos as dietas de acordo com as exigências, com o objetivo de não fazer com que as vacas engordem muito ao longo da lactação, principalmente após o pico de produção de leite, nas fases de meio e fim de lactação.

Os dados observados em experimentos aqui no Brasil e nos EUA demonstram a importância de que as vacas não cheguem no pré-parto com ECC alto (>3,25), e que os animais que iniciam o período de transição com ECC entre (2,75 a 3) geralmente tendem a manter ou ganhar ECC no início de lactação o que é condizente com melhor desempenho produtivo, reprodutivo e menores ocorrências de doenças. Fazer o correto monitoramento do ECC é a chave para buscarmos alternativas e conseguirmos intervir no momento correto almejando sempre melhores resultados aos animais e produtores.

Pensando na importância da leitura de escore corporal em vacas leiteiras e os benefícios promovidos por essa ferramenta, desenvolvemos um manual técnico-ilustrativo para auxiliar o produtor a realizar as avaliações de forma correta. Trata-se de um material capaz de promover melhoras significativas na gestão da propriedade e manejo dos animais.

Clique abaixo e faça o download:

escore de condição corporal

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Rafael Barletta

Rafael Barletta

Rafael Barletta é nutricionista de Bovinos Leiteiros na Agroceres Multimix.

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1 Comentário

  1. Severino D. J. Villela disse:

    Parabéns pelo material Rafael. Assunto de grande importância e, muitas vezes, por falta de conhecimento pouco trabalhado na atividade.

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