Características e manejo dos leitões pós-desmame

Dentro do sistema de produção suinícola, o desmame é o período mais crítico na vida do suíno devido ao estresse sofrido por diversos fatores, entre eles: a mudança de ambiente, a passagem da alimentação líquida para sólida, além do estabelecimento de uma nova hierarquia devido à mistura de leitegadas. O leitão desmamado sofre alterações fisiológicas, sobretudo, enzimáticas, o que os tornam mais susceptíveis a agentes infecciosos e diminuem o consumo e ganho de peso.

Devido ao fato de ser um período crítico, requer uma maior atenção, sendo que: quanto menos o leitão sofrer nessa fase, melhor será o seu consumo e consequentemente um melhor peso ao abate.


Características do leitão recém-desmamado

A fase pós-desmame está associada a um momento de estresse fisiológico, nutricional e queda da imunidade.

Após o desmame, o trato gastrointestinal do leitão ainda está em desenvolvimento, fazendo com que os diversos fatores de estresse sofridos nessa fase reduza o seu consumo e tenham um impacto ainda mais negativo sobre seu desempenho, resultando em estado geral de deficiência energética, o que acarreta a diminuição do ganho de peso e a ocorrência de diarreias, fatos esses responsáveis pela mortalidade e perdas significativas na produção suinícola (ARANTES et al., 2007), por isso, os animais se tornam mais susceptíveis a bactérias patogênicas (MORÉS & BARCELLOS, 2012).

Essa fase é caracterizada por um baixo desempenho, uma vez que, durante o aleitamento, o leitão recebia um alimento altamente digestível e rico em gordura, lactose e caseína, permitindo seu rápido desenvolvimento (Santos et al., 2016). Nessa fase, a alta atividade da lactase para digerir lactose com concomitante substituição por alimentos de origem vegetal, estimula a secreção de enzimas suficientes para esse tipo de alimento. A redução na produção de ácido lático, juntamente com a secreção endógena inadequada de ácido clorídrico (HCl) no estômago no momento do desmame (SURYANARAYANA et al., 2012), faz com que o leitão apresente pH do trato gastrointestinal elevado e um aumento na susceptibilidade a bactérias patogênicas.

A fim de estimular o consumo de ração, é necessário que se forneça uma ração de alta palatabilidade e digestibilidade. É importante também minimizar a presença de fatores anti-nutricionais. Sendo assim, a soja sem processamento deve ser uma fonte proteica evitada nesse momento, devido ao fato de possuir fatores alergênicos (Glicinina e β-Conglicinina), que reduzem a absorção de nutrientes e causam efeitos deletérios sobre as microvilosidades do intestino delgado (BELLAVER et al., 1999), inibindo a digestão de proteínas.

Contudo, o leitão sofre alterações morfológicas no epitélio intestinal, caracterizada pela atrofia das vilosidades e grande aumento da profundidade de cripta devido à tentativa de recuperar a altura das vilosidades (HEO et al., 2013). Nesse momento, o consumo de ração se torna ainda mais necessário, para que haja manutenção de energia para garantir recuperação do enterócito.

A alteração da integridade intestinal, baixa capacidade de secretar enzimas, alta proliferação de bactérias patogênicas e baixo consumo, resultam em declínio na digestão e absorção de nutrientes (HEDEMANN et al., 2003).


Manejo do leitão desmamado

Os indicies zootécnicos mais utilizados para fazer a mensuração de leitão na fase de creche é conversão alimentar, consumo de ração médio diário e ganho de peso diário. E para que se consiga atingir um resultado satisfatório desses índices nessa fase que o leitão sofre grandes desafios, um bom manejo é de extrema importância, buscando reduzir ao máximo os danos causados no leitão.

Dentro dos manejos de creche, podemos citar alguns que devem ter uma maior atenção ao executá-lo, entre eles, a formação de lotes, estímulo de consumo e a ambiência.


Formação de lotes:

Com o aumento do número de leitões nascidos vivos e, consequentemente, um maior número de desmamados fêmea, ocorre a superlotação das baias, o que prejudica o desenvolvimento do leitão.

Visando reduzir esse impacto negativo, a formação de lotes uniformes, espaço de comedouro e chupeta, é de extrema importância. Além de sempre adotar o sistema de manejo “all-in all-out” com uma adequada limpeza e desinfecção da sala.

A uniformização dos lotes deve ser realizada já na chegada dos leitões na creche. Os animais de baixa viabilidade devem ser alojados em baias separadas, recebendo uma atenção especial.

A recomendação mais utilizada para essa fase é de 0,3m² por animal, com 2,5 cm lineares/leitão de área de comedouro e 1 bebedouro para cada 10 animais.


Estímulo de consumo:

A maior preocupação com o leitão pós-desmame é a ingestão de ração e água na primeira semana. Durante a lactação, através do leite materno, o leitão supria sua demanda nutricional e, agora, esta é suprida por alimentação sólida e ingestão de água. Diversos trabalhos relatam que o leitão pode demorar até dois dias para encontrar o bebedouro e ingerir a quantidade suficiente de água (Gráfico 1).

Quando o manejo de estimulo de consumo na primeira semana pós-desmame não é realizado de forma eficiente, observa-se sinais clínicos de desidratação. Em contrapartida, o maior consumo de ração pós-desmame estimula a secreção de enzimas pancreáticas e, consequentemente, promove o aumento na altura das vilosidades do intestino. Dessa forma, há um maior incremento no ganho de peso (PINHEIRO, 2014).

Uma maneira eficiente de estimular o consumo nessa primeira semana é a utilização de cochos complementares, fornecendo ração úmida; atentando-se, principalmente, para a mesma não fermentar, com isso, deve ser realizado o manejo em pequenas quantidades de ração para evitar desperdício. Quanto mais vezes ao dia os animais forem estimulados, melhor, pois evita o desperdício e atrai o leitão mais vezes ao cocho.

Gráfico 1 – Tempo para consumo de água pós desmame. Fonte: Varley et al. (2004)

Ambiência:

A alta densidade de leitões por baias acaba acometendo um estresse no animal que pode provocar canibalismo e dificultar a ingestão de ração pelos animais. A qualidade do ar na creche vai afetar diretamente o consumo e a saúde dos leitões. Um gás muito presente nessa fase é a amônia (NH3), por isso a importância de estar sempre realizando a troca de ar nas salas através dos manejos de cortinas.

As instalações devem atender as necessidades de temperatura do leitão (Tabela 1), promovendo um conforto térmico e, consequentemente, um melhor ganho do animal.

Tabela 1. Referência de temperatura (°C) na fase de creche

Idade (dias)

TCI

Zona de conforto

TCS

21 – 27

27

29 – 31

33

28 – 34

26

28 – 30

32

35 – 41

24

26 – 28

30

42 – 48

23

25 – 27

29

49 – 55

22

24 – 26

28

56 – 62

22

24 – 26

28

63 – 70

20

22 – 24

26


Conclusões:

O pós-desmame é o período mais crítico na suinocultura, no qual os resultados ruins afetarão o restante da vida do animal, além disso, uma baixa preparação da saúde intestinal do suíno nessa fase pode proporcionar a necessidade de maior uso de antimicrobianos nos sistemas de produção, além de uma maior mortalidade e animais refugos nas fases seguintes. Por isso, a importância de se realizar um bom manejo e adaptação à dieta é de extrema importância, o que acarretara em um melhor retorno econômico ao produtor.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Italo Lisboa

Italo Lisboa

Ítalo de Oliveira Lisboa é consultor técnico comercial da divisão de suinocultura na Agroceres Multimix.

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1 Comentário

  1. Miqueias Agroceres Multimix Miqueias Agroceres Multimix disse:

    Ótimo conteúdo. Parabéns pelo trabalho!

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