Como se planejar para o período da seca?

Período da seca como se planejar?

Não seria novidade se eu dissesse que vai ocorrer o período da seca no centro-oeste brasileiro. Impreterivelmente, as mudanças climáticas que marcam o outono e inverno (redução do volume e frequência das chuvas, diminuição das horas de luz por dia e queda da temperatura) comprometem o crescimento da planta, resultando em baixa – ou nula – produção de matéria seca por hectare e perda da qualidade da forragem disponível para os animais em pastejo. Esses eventos, além de resultarem em efeito negativo no desempenho dos animais, estão diretamente ligados à capacidade suporte da fazenda.

Dessa forma, a taxa de lotação durante o período da seca se torna um dos grandes problemas porteira a dentro, sendo um contraponto quando pensamos em aumento da taxa de lotação e ganhos em produtividade. Na prática, dificilmente a lotação obtida durante as águas será sustentada durante o período da seca.

Período da seca - Nutrição Animal | Agroceres Multimix

Figura 1. Sazonalidade na produção forrageira.

Como já discutimos em outros momentos, um bom planejamento é fundamental para qualquer atividade, e nesse caso não é diferente. A falta de uma estratégia para “enfrentar” o período da seca pode, por exemplo, fazer com que o produtor precise vender animais na tentativa de “desafogar” a fazenda por falta de pasto, sujeitando-o aos preços pontuais de mercado, o que nem sempre resulta em uma boa remuneração.

Quando pensamos em planejamento forrageiro para o período da seca, uma estratégia que surge como opção, principalmente em situações que requerem a manutenção de altas taxas de lotação, seria a utilização de suplementação volumosa a partir do uso de silagem, capineiras ou feno. Esse recurso, apesar de ser tecnicamente viável e aplicável na prática, exige maior utilização de mão de obra e alto grau de investimentos (maquinário, infraestrutura, etc.), demandando maior aporte tecnológico e administrativo do sistema de produção.

Nessa mesma linha, outra opção seria utilizar a suplementação de maior consumo – 0,5% até 2,0% do peso vivo do animal – combinada à estratégia apresentada a seguir. No entanto, quando falamos em fornecimento de suplementos de maior consumo, devemos avaliar muito bem a estrutura da fazenda do ponto de vista operacional e econômico, mas este é um assunto para discutirmos em outro texto.

Diferimento da Pastagem

Também conhecida como vedação ou feno em pé, essa técnica consiste em selecionar determinadas áreas da fazenda – geralmente no fim do período de águas – e isolá-las do pastejo, permitindo assim que o pasto cresça – “descanse” – e a forragem ali produzida seja utilizada para alimentar os animais durante o período da seca.

O diferimento é uma técnica de baixo custo e, teoricamente, fácil de ser implementada. Porém, apesar de parecer simples, existem vários fatores que podem influenciar a qualidade do pasto diferido.

O primeiro ponto de atenção é a escolha da espécie forrageira que será utilizada, sendo que as plantas com hábito de crescimento ereto, como as do gênero Panicum (ex.: Capim-Tanzânia; Capim-Mombaça) devem ser evitadas, pois elas facilmente se entouceiram e produzem muitos “talos”, resultando em pastos com estrutura ruim e difíceis de serem pastejados. O risco de perdas por acamamento nesse caso também é maior. Sendo assim, espécies forrageiras como as Brachiarias e Cynodons seriam as mais indicadas para o uso da técnica.

Existem ainda outros pontos que devem ser considerados, como: quando será realizada a retirada dos animais da área; qual a situação do pasto na ocasião do diferimento; qual o período que o pasto ficará diferido e; quais as condições climáticas durante o período de diferimento. Essas ações não envolvem custos, porém demandam muito conhecimento da área a ser trabalhada. Aqui me arrisco a dizer que 90% do sucesso da técnica está relacionada a essas ações de manejo.

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No campo existe uma cultura muito forte que diz que o pasto nesse momento deve florescer para que ocorra a ressemeadura natural, o que melhoraria o número de plantas e ajudaria a “fechar” melhor a área. Outro dito popular sugere que quanto mais massa acumulada no pasto diferido, melhor o ganho de peso dos animais durante o período da seca.

Ambas as afirmativas não se confirmam na prática. No caso das braquiárias – espécie mais utilizada em pastos diferidos – a eficiência da ressemeadura natural é muito baixa, e ambas as medidas contribuem para a piora da qualidade do pasto, principalmente em relação à estrutura, devido ao grande acúmulo de “talo”. É importante deixar claro que, quando ocorre produção excessiva de forragem no pasto diferido, grande parte não será consumida pelos animais e, portanto, muito alimento será perdido.

Um ponto essencial para um bom planejamento – e que geralmente sou questionado – é saber como dimensionar de maneira adequada a área que será diferida.

A recomendação prática é reservar ± 30% da área dos pastos para utilizar durante o período da seca. Valor este que permitiria um bom manejo dos pastos da fazenda e não sobrecarregaria a lotação nas áreas não diferidas durante o final das águas. Valores muito acima deste comprometeria a aplicabilidade da técnica, principalmente em grandes áreas.

No entanto, utilizar um valor genérico pode comprometer o planejamento forrageiro, visto que, ao adotar como padrão o diferimento de 30% da área, podemos esbarrar em duas situações distintas: 1) 30% da área pode não ser suficiente para alimentar os animais, considerando a taxa de lotação praticada na fazenda, o que resultará na falta de pasto; 2) a demanda de área pode ser menor do que os 30% praticado e, nesse caso, o diferimento padrão resultará em ociosidade de determinada área.

Sendo assim, o cálculo da demanda de área a ser diferida permite conhecer a real necessidade da fazenda e, com isso, promover o uso eficiente dos recursos forrageiros da propriedade e/ou ajuste necessário na lotação praticada na fazenda.

O primeiro passo para definir a área a ser diferida é determinar a taxa de lotação (TL) da propriedade (média do ano) e as taxas de lotação que serão praticadas, nas áreas diferidas e naquelas que não serão diferidas.

Existem algumas maneiras de estimar a taxa de lotação: 1) a partir do histórico dos dados de lotação de anos anteriores; 2) a partir de dados obtidos em experimentos de pesquisa gerados em condições semelhantes à da fazenda; e 3) a partir da amostragem de forragem das áreas de pastagem e cálculos da taxa de lotação.

Com esses valores em mãos, podemos utilizar a equação proposta por Martha Jr. et. al (2003) e proceder com o cálculo utilizando a equação a seguir:

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Para exemplificar, vamos supor que uma fazenda possui TL anual de 1,0 UA/ ha, TL na área diferida de 1,5 UA/ ha e a TL na área não diferida de 0,5 UA/ ha. Aplicando a formula, teremos:

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Realizando os cálculos, temos que a área a ser diferida é 50%. Como já comentado, o diferimento muito acima de 30% da área é difícil de ser praticado e pode comprometer o manejo dos pastos, podendo resultar em super pastejo das áreas não diferidas. Nesse caso, uma primeira discussão a ser feita é que a TL anual está acima do que a fazenda comporta.

Para realizar o ajuste no valor de lotação e torná-la mais condizente com a realidade da fazenda, podemos substituir na equação a área diferida por 30% – valor possível de ser praticado – e calcular qual deveria ser a lotação anual.

Período da seca - Nutrição Animal | Agroceres MultimixVemos que para trabalhar com uma área diferida no máximo em 30%, o produtor precisaria ajustar a lotação anual da fazenda para 0,8 UA/ ha. Caso esse ajuste não seja feito, mantendo-se em 1,0 UA/ha e a área diferida fosse de 30% e não 50%, haveria a necessidade de fazer uso da suplementação volumosa ou suplementação de maior consumo para manter a lotação pretendida. Nesse caso, caberia uma análise de benefício/custo para analisar qual opção seria mais interessante.

Utilizando o exemplo acima para discutir um pouco mais sobre diferimento, o produtor poderia ainda optar em fazer uma adubação estratégica das áreas que serão diferidas e adotar boas medidas de manejo. Supondo que estas ações elevariam a lotação das áreas diferidas para 2,3 UA/ ha e refazendo os cálculos nessa nova situação, temos:

Período da seca - Nutrição Animal | Agroceres MultimixVemos que a quantidade de área que precisaria ser diferida passou a ser de 28%, ou seja, na prática, uma área possível de ser reservada para esse fim.

Existem vários pontos que envolvem a técnica do diferimento e devem compor a discussão no momento do planejamento. O que buscamos elucidar neste texto foi a importância em se preparar para a época seca do ano e também listar alguns pontos que podem comprometer os resultados esperados.

Fica evidente que o dimensionamento da área é um ponto de partida fundamental para compor o planejamento forrageiro, não só para o período da seca, mas para a definição da capacidade suporte da fazenda ao longo do ano.

Apesar de ser uma técnica teoricamente simples, existem vários fatores que influenciam o acúmulo de forragem no pasto diferido (condições climáticas, adubação, fertilidade do solo, estágio fisiológico da planta) e, por consequência, a taxa de lotação que será praticada nessas áreas. Estes fatores devem ser considerados no planejamento e constantemente reavaliados, podendo ser utilizados como ferramentas para potencializar a técnica.

Agroceres Multimix. Muito Mais que Nutrição.

Matheus Moretti

Matheus Moretti

Matheus Moretti é Gestor Técnico de bovinos de corte na Agroceres Multimix

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1 Comentário

  1. Alex Escobar disse:

    Bom dia Mathes Moretti, parabéns pela atitude de compartilhar esta informação. Seu artigo é de grande valia para os profissionais que atuam na produção a pasto. Ficou muito bem explicado.

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