LactAção – Componentes no leite: Entendendo sua importância e variações

A maioria das empresas compradoras de leite que atuam no mercado brasileiro, e também em outras partes do mundo, emprega um sistema de preços com base nos componentes no leite, principalmente gordura e proteína. Como resultado, os níveis desses componentes, além de se tornarem indicadores de saúde dos animais, assumem grande importância econômica ao produtor.

Iremos descrever em diante as variações encontradas na produção desses componentes, fatores dessa variação e estratégias para melhorar a produção desses componentes no leite.

Entenda as Variações dos Componentes no Leite

O leite é composto normalmente por 87% de água, 3,9% de gordura, 3,2% de proteínas, 4,6% de lactose e 0,9% de minerais e vitaminas (Harding, 1995). Dentre os fatores que interferem na composição, um deles é a raça. Holandês apresenta (percentualmente) menor teor de sólidos do que outras raças como Jersey.

Raça

Gordura (%)

Proteína (%)

Jersey

4,60

3,59

Pardo Suíço

4,04

3,38

Holandês

3,65

3,06

Fonte: USDA.

Animais zebuínos também apresentam elevada concentração de sólidos no leite, sendo esta concentração diluída com a elevação de grau de sangue Holandês.

Raça

Gordura (%)

Proteína (%)

3/4 Holandês – 1/4 Zebu

3,66

3,20

5/8 Holandês – 3/8 Zebu

4,01

3,42

1/2 Holandês – 1/2 Zebu

4,00

3,52

3/4 Holandês – 1/2 Zebu

4,08

3,54

Zebu

4,39

3,83

Fonte: Adaptado de Fonseca e Santos 2000.

Essa variação também pode ocorrer entre diferentes rebanhos, com variação média de 3,1% para proteína e 3,8% para a gordura. Isso representa uma excelente oportunidade para trabalhar na elevação destes componentes no leite. A genética e a herança genética representam 55% da diferença entre as vacas para estas composições. Durante muitos anos, os touros foram selecionados para altas produções leiteiras, o que resultou em lentas elevações nas porcentagens de gordura e proteína ao longo do tempo. No entanto, como as percentagens de gordura e proteínas estão negativamente correlacionadas com a produção do leite, não é provável que as alterações nas percentagens dos componentes do rebanho sejam conseguidas apenas através da seleção genética.

componentes no leite

Figura 1: Variação entre a concentração de gordura e proteína em função dos diferentes rebanhos e da sazonalidade (Adaptado de Bailey et al. 2005) *As faixas representam os desvios e a linha representa a média.

 

A figura 1 ajuda a enxergar que a estação afeta drasticamente os componentes no leite como a gordura e a proteína do leite. Os meses quentes e úmidos deprimem a gordura e o teor de proteína. Há um aumento gradual da proteína e da gordura durante o outono e os níveis máximos ocorrem nos meses mais frios do inverno. À medida que as temperaturas aumentam durante a primavera, os níveis dos componentes no leite diminuem gradualmente. Essas mudanças podem ser indicativas de padrões de ingestão alimentar, que são menores no verão devido a mudanças na temperatura e umidade.

A idade dos animais influencia a composição do leite. A gordura cai cerca de 0,2%/ano da primeira a quinta lactação, como resultado da maior produção e mastite. A proteína diminui 0,02 a 0,05%/lactação neste mesmo período. Em relação ao estádio de lactação, os percentuais caem para o ponto mais baixo entre 25 a 50 dias de DEL (dias em lactação), e apresentam seus pontos mais elevados com 250 dias em diante, por causa da queda de produção. A perda excessiva de escore no início da lactação pode aumentar a gordura no leite. Entretanto, as vacas obesas e as de baixo escore, na lactação posterior a este evento (ganho ou perda de escore corporal) tendem a apresentar baixos teores de proteína e gordura no leite.

De todos os fatores que afetam os componentes no leite, a alimentação e suas práticas são as mais impactantes. No entanto, seu correto gerenciamento ocasiona rápida e notável mudança nessa composição. A depressão da gordura do leite pode ser normalizada dentro de 7 a 21 dias alterando-se a dieta. A alteração da proteína do leite pode levar de 3 a 6 semanas. Mudanças nutricionais estão mais fortemente correlacionadas ao teor de gordura do que a de proteína. A gordura do leite pode ser alterada de 0,1 para 1,0 pontos percentuais, enquanto a proteína raramente é alterada acima de 0,1 a 0,4 pontos.

Metade da gordura no leite é sintetizada no úbere através do acetato ruminal. A outra metade é oriunda de ácidos graxos circulantes no sangue, originadas de mobilização corporal, da dieta ou metabolizadas no fígado.  Em concentrações adequadas de gordura na dieta, a gordura no leite pode ligeiramente aumentar (0,1 a 0,3%) ou não se alterar. Em elevadas concentrações de gordura dietética, ou por quantidades inadequadas de óleos polinsaturados, a gordura no leite pode diminuir.

A população microbiana do rúmen converte a proteína da dieta em proteína microbiana, que é fonte principal de aminoácidos para o animal e para o leite. A glicose (essencial para síntese proteica) é formada através do propionato ruminal. Se há menor fornecimento de propionato, o organismo terá que disponibilizar alguns aminoácidos específicos para convertê-los em glicose (processo conhecido como gliconeogênese), o que pode limitar as proteínas do leite. Com isso, o entendimento da dinâmica ruminal é essencial para manipulação da composição do leite. Níveis de carboidratos não fibrosos (CNF) entre 32 – 38%, são recomendados para otimizar a composição proteica minimizando efeitos sobre a gordura no leite. A deficiência moderada de proteína na dieta, pode acarretar reduções de 0,2 pontos percentuais na proteína do leite. Quantidade proteica acima das exigências não provoca sua elevação no leite, visto que aumenta sua excreção. Fontes de nitrogênio não proteico (NNP) substituindo fontes verdadeiras, podem diminuir em até 0,3 pontos percentuais a proteína no leite. Pastagens manejadas intensivamente podem alterar o NNP do leite e seu percentual proteico. Nas formulações, deve-se procurar equilíbrio entre fontes de proteína degradáveis e não degradáveis no rúmen.

A variação dos componentes no leite, gordura e proteína no leite, também ocorrerem por “falhas mecânicas”. Diminuição em suas concentrações são decorrentes de problemas no resfriamento no tanque, erros de amostragem e excesso de agitação na tubulação.

O pagamento diferenciado do leite, fundamentado em critérios de qualidade da matéria-prima, é uma evolução do sistema de comercialização do produto e um aprimoramento das relações entre a indústria e os produtores. Qualquer dieta ou manejo alimentar afeta a fermentação do rúmen, o que pode alterar a composição do leite. Fornecer energia e proteína adequadamente, quantidades equilibradas de carboidratos e de fibra efetiva, são chaves para obtenção dos melhores níveis de componentes no leite.

O desafio da nutrição em direção aos componentes no leite, é que as dietas de alta energia e baixa fibra, que elevam a proteína do leite, provavelmente reduzirão a gordura. Por isso o profissional de Nutrição Animal é tão importante no processo, onde realiza a manipulação da composição do leite de acordo com as necessidades impostas pelo sistema, alinhadas com maiores produção, saúde e lucratividade.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Carlos Giovani Pancoti

Carlos Giovani Pancoti

Carlos Giovani Pancoti é nutricionista de bovinos de leite da Agroceres Multimix

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