Cuidando da cria: boas práticas ao nascimento

Boas práticas ao nascimento

A temporada de nascimento de bezerros pode ser considerada uma das mais importantes dentro da pecuária brasileira, em especial nas fazendas de cria. Quando os bezerros nascem, um novo ciclo se inicia dentro da atividade, e todo mundo quer colher bons frutos. Mas será que “a regra de ouro”, para que esse cenário seja lucrativo, significa: um bezerro por vaca por ano; ou talvez, um bezerro desmamado por vaca por ano; ou ainda, um bezerro desmamado, em ótimas condições, por vaca por ano?

As margens de lucro da atividade pecuária estão cada vez mais estreitas, e somos levados a crer que não basta que o tenha o nascimento de bezerros, é fundamental que ele permaneça em ótimas condições até o desmame.

 Nesse contexto, quando o animal não mantém condições favoráveis, é preciso se preparar para algumas situações críticas que, consequentemente, aumentam os custos de produção: a primeira começa muito antes do nascimento, na preparação das matrizes para a cobertura (manejo nutricional, sanitário, etc.). Nessa fase, é importante propiciar um ambiente ideal para o feto, livre de doenças que causem aborto e até mesmo a infertilidade nas vacas, monitorando e realizando os exames para Brucelose, Leptospirose, Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR) e Diarréia Viral Bovina (BVD).

Outra situação refere-se à morbidade dos bezerros, ou seja, animais que ficam debilitados, doentes e que necessitam de cuidados constantes para recuperação (maior uso de medicamentos, mão de obra, manejos específicos, etc.), não alcançando o mesmo desempenho que os bezerros saudáveis;

Além dos bezerros, as vacas gestantes também precisam de grande atenção, pois ao parirem um bezerro morto seu custo torna-se superior, se comparado a uma vaca que não concebeu. Isso acontece porque vacas gestantes e paridas possuem exigências e cuidados superiores.

Para evitar a morbidade e até a morte de bezerros após o nascimento é necessário um bom planejamento e conhecimento das atividades a serem realizadas, que permeiam desde: as condições dos pastos-maternidade, as rotinas de visitas à maternidade, o acompanhamento dos partos e cuidados nos primeiros dias de vida dos bezerros, além de uma equipe qualificada para realizar os manejos da melhor maneira possível.

Os materneiros devem estar atentos a tudo que ocorre na maternidade, registrando todas as ocorrências e buscando soluções para os problemas encontrados, sempre utilizando EPI (Equipamento de Proteção Individual) em suas atividades. Por exemplo: ao identificar uma vaca com dificuldades para parir, esses profissionais devem avaliar a situação, ajudando o animal imediatamente ou – em alguns casos – contatando o médico veterinário (quando possível).

Para dar início à fase de nascimento de bezerros nas fazendas, devemos prestar muita atenção no planejamento e dimensionamento dos pastos onde serão feitas as maternidades. A determinação dos pastos nessa fase tem como objetivo aprimorar a acomodação das vacas e, consequentemente, melhorar o acompanhamento dos partos. Os pastos de maternidade ideais são aqueles que estão em ótimas condições (cercas, bebedouros, cochos com manutenções em dia) e que podem oferecer um bom grau de bem-estar para vacas e bezerros, fator quase nunca identificado pelos colaboradores das fazendas.

Quando falamos em bem-estar na maternidade, estamos nos referindo ao espaço (menores densidades), grupo social (evitar a mistura de categoria: vacas e  novilhas), disponibilidade de alimento (água-pasto-suplemento em quantidade e qualidade), sombra (conforto térmico), ambiente limpo (sem arbustos, buracos e lama) e distante de áreas movimentadas (como: currais, moradias, estradas), já que nas primeiras 12 horas pós parto, ambos precisam de “sossego”, porque nesse momento ocorre o processo de reconhecimento mãe-filho (vínculo materno filial). Ao mesmo tempo, a maternidade deve permitir fácil acesso aos materneiros, com o fim de melhorar as rotinas de visitas.

As visitas à maternidade devem ser realizadas pelo menos duas vezes ao dia, uma pela manhã e outra ao final da tarde, com o objetivo de monitorar as vacas em trabalho de parto e de identificar e prevenir problemas na época de nascimento (ex.: vacas com baixa habilidade materna, bezerros pouco vigorosos e com dificuldades ou atrasos em realizar a primeira mamada), além disso, é preciso monitorar a presença de predadores.

Sabemos que os cuidados com os bezerros começam – sem dúvida – antes do parto. Planejar as atividades, organizar e adquirir os materiais que serão usados nos primeiros cuidados com os bezerros é muito importante. Leve em consideração a quantidade e qualidade dos materiais, providenciando e avaliando o estoque de produtos (ex.: data de vencimento) para levar a cabo os processos de identificação (tatuador, tinta), assepsia, “queima” do umbigo, vermífugação (agulhas, seringas), e pesagens dos bezerros no dia pós-parto.

Uma equipe bem treinada e experiente na execução dos manejos com os bezerros desempenha papel fundamental do sucesso da maternidade.  Nesse caso, vale a premissa “menos é mais”. Dois colaboradores podem conduzir o manejo dos bezerros, sendo um responsável pela contenção e cuidados com o bezerro, e o outro em manter a vaca afastada, cuidando da segurança física do companheiro. Quando priorizamos a segurança dos materneiros, evitamos o risco com acidentes, principalmente aqueles relacionados às investidas das vacas, um comportamento de defesa e proteção da sua cria.

Quando estão em segurança, nossos colaboradores terão melhores condições para que o trabalho seja bem executado, com maior controle na identificação, no registro das informações e qualidade na aplicação de medicamentos nos animais.  Materneiros em segurança ficam mais calmos e, consequentemente, deixam os animais (vaca-bezerro) tranquilos, já que o objetivo é realizar o manejo sem agitação e agressão aos animais.

É preciso levar em consideração que esse é o primeiro contato que os bezerros terão com o ser humano, por isso deveríamos aproveitar o momento para criar uma boa relação com os animais. Tenha em mente que bovinos são animais com ótimas memórias.

A disponibilidade de estruturas operacionais de baixo custo facilita os cuidados com os bezerros e reduz o risco de acidentes com os colaboradores e os animais. Como por exemplo, temos:

  1. Manta (Figura 1): para pesagem e contenção do bezerro, usada principalmente para levantar o bezerro a uma altura que o colaborador se sinta confortável para realizar o manejo e abolir a contenção do animal no chão sob a força física do colaborador, reduzindo os riscos de acidentes;
Nascimento - Agroceres Multimix Nutrição Animal

Figura1: Manta

 

  1. Tripé (Figura 2): usado para levantar o bezerro contido na manta quando a propriedade não possui nenhuma estrutura (cercado, medroso, casinha) para realizar a contenção, ou seja, facilita o manejo.
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Figura 2: Tripé

Temos que a grande maioria dos manejos de cura de bezerros acontece da seguinte maneira: é feito um rodeio na vacada, em um canto do pasto; em seguida, o bezerro vai ser buscado (laçado) por um vaqueiro a cavalo, que o traz até o materneiro que está no solo e que será responsável por fazer a contenção “tradicional”, deitando o bezerro no chão e se posicionando por cima dele para imobilizá-lo, realizando a partir disso todo o processo de identificação, vermifugação, pesagem, etc. Muitas vezes, os animais são trazidos ao arrasto nesse tipo de manejo, provocando grande estresse, já que o bezerro berra e a vaca sai em defesa dele, podendo investir nos materneiros e assim aumentando o risco de acidentes no trabalho, bem como lesões nos animais.

  1. Casinha de manejo (Figura 3) ou Medroso (Figura 4): estrutura fixa, feita nas remangas entre as maternidades, para realizar o manejo com o bezerro, proporcionando melhor contenção do animal e maior conforto para o materneiro.
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Figura 3 e 4: Casinha de manejo / Medroso.

Você saberia dizer quais são os impactos ao se adotar boas práticas no manejo de bezerro? Estamos cientes de que as boas práticas de manejo na fazenda trazem resultados positivos, tanto para o bem-estar animal quanto para a lucratividade do sistema. Falando de maneira simplista, no caso do manejo com bezerros, podemos esperar redução da morbidade e mortalidade dos bezerros, refletindo em aumento na quantidade de bezerros desmamado em ótimas condições. Além disso, é importante aplicar técnicas de manejo mais gentis com os animais. Tenham sempre em mente: bezerros são animais recém-nascidos e devem ser tratados como tal.

Agroceres Multimix. Nutrição Animal.

Arquimedes Riobueno

Arquimedes Riobueno

Arquimedes Riobueno Pellecchia é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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2 Comentários

  1. MOACIR GOMES disse:

    Muito interessante. Se pelo menos metade das propriedades brasileiras seguissem e aplicassem essas importantíssimas orientaçoes, nossa pecuária era muito mais competitiva. Porém infelizmente, não é esse o quadro que se encontra, quando se sai das salas confortáveis para a realidade nua e crua do campo brasileiro. COMO PODEREMOS FAZER PARA MELHORAR O MANEJO DA NOSSA PECUARIA DE MODO GERAL NAS FAZENDAS BRASIL AFORA?

    • Arquimedes Riobueno Arquimedes Riobueno disse:

      Verdade Moacir,
      A realidade vivida no dia a dia das propriedades é outra, por isso acredito que é a oportunidade para começarmos a pensar em mudança. Sei que toda mudança traz algum sentimento do tipo: “Será que vai dar certo? Acho que na minha fazenda não vai dar resultado!”, mas se não arriscarmos ou, pelo menos, pensarmos em como fazer alguma adaptação à nossa realidade, nunca saberemos se dará certo.
      Primeiramente, para mudar nosso manejo na propriedade, temos que começar pelo aperfeiçoamento da nossa equipe, através de treinamentos, explicando o porquê de mudarmos o manejo com nossos animais, conhecendo a realidade de cada um. Sem equipe, não plantamos e nem colhemos bons frutos.
      Além disso, é preciso oferecer boas condições de trabalho. Não é necessário o luxo, mas algo prático e funcional, para que seja feito o serviço da melhor maneira. Podemos citar, como exemplo: o medroso com adaptação à manta para contenção do bezerro; e o principal – na minha opinião – é a mudança de atitude de todos os envolvidos na pecuária. Tem que existir amor e vontade de fazer o trabalho bem feito, seja: o vaqueiro, capataz , materneiro, gerente, dono, etc.
      Acredito que esses seriam um dos pilares para começarmos a transformarmos nossas fazendas de pecuária no Brasil afora.
      Obrigado pelo comentário.
      Abraço!

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