Falando em Bem-Estar – Bem-estar animal e Confinamento: entender para melhorar!

O conceito de bem-estar animal

O bem-estar animal é um conceito muito presente no dia a dia da bovinocultura de corte, principalmente quando falamos sobre os sistemas intensivos, como a terminação de bovinos em confinamentos. Confinar bovinos é uma estratégia para melhorar os índices produtivos e econômicos das fazendas, mas, ao mesmo tempo, demanda grandes investimentos com alto risco econômico.

A mudança de sistema e a transferência dos bovinos para o ambiente de confinamento implica na imposição de uma série de alterações na vida dos animais, em um curto período de tempo, como: a mudança na dieta e no regime alimentar, reagrupamento social (mistura de animais de diferentes lotes), redução do espaço disponível por animal, alojamento em grandes grupos, maior exposição a condições climáticas extremas, etc. Quando os animais enfrentam qualquer situação desafiadora, ocorre ativação de mecanismos adaptativos que buscam manter o equilíbrio do corpo, ocasionando mudanças metabólicas e comportamentais, que podem ser vistas ao longo do tempo de confinamento.

Essa situação, se persistente, compromete o bem-estar animal. A definição de bem-estar animal que melhor se encaixa no contexto científico, descreve que: bem-estar animal é o estado de um organismo em relação às tentativas de se adaptar ao seu ambiente (Broom, 1986). Em outras palavras, um animal que apresenta dificuldades em se adaptar ao meio tem elevados custos biológicos (como por exemplo: gasto de energia e redução da imunidade), devido às tentativas malsucedidas de se adaptar e, consequentemente, tem seu bem-estar e desempenho comprometido.

Partindo do princípio de que o ambiente de confinamento é desafiador para os animais, o que será que nós podemos fazer para minimizar as dificuldades que os bovinos enfrentam nesse ambiente? Essa pergunta nos remete ao fato de que, de maneira geral, as dificuldades adaptativas dos bovinos ao confinamento ocorrem porque o animal (parte essencial do sistema) não tem suas necessidades básicas (físicas e psicológicas) atendidas. Para atendê-las é necessário ter conhecimento básico sobre a biologia, o comportamento e o bem-estar dos bovinos, e a partir disso usar estratégias de manejo que atendam essas necessidades, o que reflete positivamente na eficiência produtiva dos rebanhos.

Nesse cenário é crescente o número de profissionais envolvidos na produção de bovinos de corte, que estão se conscientizando sobre a relação bem-estar animal e desempenho. Entretanto, ainda encontramos animais enfrentando sérias dificuldades para se adaptar ao ambiente dos confinamentos brasileiros. Se fizermos uma avaliação crítica da terminação de bovinos em confinamentos, seremos capazes de perceber o quanto nós podemos ser mais eficientes. Estratégias de manejo focadas na familiarização prévia dos animais, no aumento da área por animal (m2/animal), na redução do número de animais por lote, disponibilidade de sombra e espaço adequado de área de cocho por animal, facilidade para acessar o cocho, bem como manejos básicos (limpeza periódica de bebedouro, etc.), apresentam resultados positivos.

É ideal formar os lotes antes da entrada no confinamento, para que os animais se acostumem com a nova dieta e com seus companheiros de baia.  A mudança repentina da dieta bem como a formação de um novo grupo social é fonte de estresse para o animal e de impacto negativo no desempenho. Tem sido bem comum notar na realidade dos confinamentos que esse período de adaptação alimentar e social varia entre 21-30 dias para se estabelecer.

A ideia de familiarizar o animal antes do confinamento resulta em uma série de vantagens, como: minimizar o impacto sobre a microbiota ruminal (redução do risco de ocorrência de acidose subclínica e variações no consumo), bem como permitir que eles se acostumem com maior contato do homem, com o barulho das máquinas, o sabor e o cheiro do alimento, com o uso do cocho e os horários de fornecimento, já que não terão a opção de escolha como no sistema a pasto.

Outra vantagem de formar previamente um grupo (com animais de diferentes lotes) é bem simples. Bovinos são animais que apresentam o que chamamos de: hierarquia de dominância. Podemos definir hierarquia de dominância como quando um determinado espaço é compartilhado pelos animais e eles normalmente definem, por meio de interações sociais negativas (brigas, tentativas de monta e cabeçadas, etc.), quem é dominante e quem é submisso, ordenando assim aquele que tem prioridade sobre os recursos. Após a definição da hierarquia de dominância os conflitos se tornam mínimos e a hierarquia estável, a não ser que animais desconhecidos sejam introduzidos no grupo.

Para que a definição da hierarquia do grupo ocorra de um jeito menos negativo é necessário tempo, e um ambiente mais próximo ao natural como, por exemplo, em piquetes, em que os animais possuem maior espaço disponível e não ocorre uma competição intensa por recursos (água, alimento, espaço, área de descanso, entre outros) como no ambiente de confinamento. Como resultado desse manejo, pesquisas realizadas em confinamentos comerciais confirmam maior ganho de peso médio diário dos animais (apresentando maiores ganhos de peso nos primeiros 21 dias), reduzido número de refugos de cocho, pois os lotes familiarizados, quando transferidos para as baias, vão direto ao cocho e apresentam reduzida competitividade, bem como aumento das interações sociais positivas.

Nesse contexto, é preciso estar atento ao número de animais por lote. Grupos muito grandes trazem dificuldades aos animais, uma vez que não será fácil o reconhecimento dos seus semelhantes e a memorização do status social de cada membro do grupo, aumentando a ocorrência de interações sociais negativas e, consequentemente, a variação no desempenho individual, resultando em lotes mais heterogêneos.  Confinar grupos muito grandes também pode provocar maior gasto com manutenção de estruturas (cercas e cochos) e dificultar o manejo devido a necessidade de uma equipe maior, com maior demanda de operacional no fornecimento de alimento.

Além de familiarizar os bois e formar lotes menores, a área que disponibilizamos por animal dentro das baias é outro fator importante na dinâmica de adaptação ao confinamento. Talvez estejamos falando de um dos fatores que mais influenciam no bem-estar animal, além da pressão sobre o ambiente, já que na maioria das baias, determinamos uma área reduzida por animal. Comumente, temos visto no campo a disponibilização de 12 a 14 m²/animal, o que a princípio tem sido determinado empiricamente.  Espaço muito reduzidos limitam a expressão dos comportamentos naturais dos bovinos e provocam o aumento de comportamentos negativos devido ao estresse social que pode ser traduzido, como maior violação do espaço individual do animal e maior disputa por recursos (espaço, acesso ao bebedouro e ao cocho).

Apesar de ser considerado um aspecto secundário – o que é um equívoco -, nessa condição a ambiência é comprometida devido a maior formação de lama (principalmente nas regiões com índices pluviométricos elevados) e problemas com dimensionamento e manutenção da baia. Confinar bovinos em baias com excesso de lama é prejuízo na certa.

Em baias com excesso de lama, é comum observar que os animais passam mais tempo em pé, ocorre redução do consumo e maior gasto de energia para se locomover. Como se fosse pouco, os riscos de ocorrência de doenças e problemas de casco aumentam. Confinar bovinos sob essas condições é um caso a ser repensado.

Quando falamos em área por animal, não devemos pensar somente em espaço dentro da baia, devemos considerar também a área de cocho e bebedouro, por animal. Não podemos errar nisso, já que comer e beber é o princípio básico da atividade. Para não pecarmos nesse ponto devemos levar em consideração aspectos como: tipo da dieta, categoria animal e a frequência de tratos, que também é um aspecto importante nessa dinâmica. Espaço adequado de cocho é necessário para que os animais consigam ingerir a dieta exatamente como foi formulada e na quantidade certa. É muito diferente 30cm para um animal de 13@ e os mesmos 30cm para um animal de 20@.

Outro ponto muito importante – quando falamos de consumo de alimento – é a limpeza e manutenção dos cochos e bebedouros (FIGURAS 1ab), porque não adianta disponibilizar espaço adequado por animal, se o boi não consegue ou tem dificuldade em acessar o cocho ou bebedouro (devido a presença de desnível ou lama excessiva), ou encontra água suja e alimento fermentado no cocho por exemplo.

Post: Bem-estar Animal. Bebedouro sujo e lama na área de acesso do cocho.

Figura 1. Bebedouro sujo – falta de limpeza (a); lama na área de acesso do cocho – falta de manutenção (b)

Oferecer um espaço para que o animal possa se proteger da radiação solar é uma ação que tem impacto positivo no bem-estar animal e no desempenho dos animais em confinamento. A premissa também é verdadeira para bovinos da raça Nelore que, embora sejam animais mais adaptados aos trópicos, não os exclui da necessidade de abrigar-se na sombra. Trabalhos apontam para ganhos superiores de 120 gramas/dia para animais com acesso à sombra artificial, se comparado ao grupo controle, sem acesso a sombra. Vale lembrar que a sombra pode ser natural ou artificial e, nesse caso, atenção especial deve ser dada ao dimensionamento e a instalação da sombra, permitindo o deslocamento da sombra ao longo do dia, e área adequada para que os animais da baia possam acessar o recurso sem competição (Figura 2).

Post: Bem-estar Animal. Baia de confinamento com sombreamento artificial.

Figura 2. Baia de confinamento com sombreamento artificial.

Sistemas de aspersão podem ser utilizados como estratégia adicional para promover conforto térmico dos animais confinados e reduzir a presença de poeira. Atenção deve ser dada para o dimensionamento do sistema (reservatório de água, limpeza para evitar o entupimento dos bicos, posicionamento dentro das baias, bem como os horários estratégicos do dia e o tempo de funcionamento), do contrário, podemos ter um investimento sem retorno para a propriedade.

Uma ferramenta necessária e muito importante dentro do sistema é a capacitação e treinamento constante de todos os envolvidos na atividade já que, apenas dessa forma, os profissionais estarão aptos a realizar observações e medições objetivas para manter um bom grau de bem-estar animal, e ainda promover um aumento na produtividade.

Quando falamos em desempenho no confinamento, é preciso considerar – obviamente com razão – o potencial genético dos animais, a composição nutricional da dieta e os protocolos sanitários. Mas isso não é tudo! Muitas vezes, o animal (a sua unidade produtora), a parte essencial do sistema, não tem suas necessidades básicas (físicas e psicológicas) atendidas.

Esse texto não tem o propósito de esgotar todas as estratégias de manejo, nem as ações diretas que podemos tomar para tornar o ambiente do confinamento menos desafiador para os animais.  O objetivo foi abordar alguns detalhes importantes que visam atender as necessidades básicas dos bovinos em confinamento, e que podem ser traduzidas em ganhos para o sistema.

Para finalizar, deixamos uma pergunta: Quão desafiador é o ambiente de confinamento que nós estamos oferecemos para os bovinos?

Lembre-se:

O estado de bem-estar de um animal tem relação direta com o seu desempenho.

Agroceres Multimix. Nutrição Animal.

Arquimedes Riobueno

Arquimedes Riobueno

Arquimedes Riobueno Pellecchia é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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