Geração agPastto: Por que e como trabalhar o proteinado na seca?

Como e porque trabalhar o proteinado em tempo de seca?

Você irá descobrir a seguir nesse artigo. Estamos chegando no momento mais crítico do ano para a produção de bovinos a pasto no Brasil central: o período da seca. Nessa época do ano, com a senescência das forragens e a perda do seu valor nutritivo, temos o comprometimento da digestibilidade do capim e consequente queda do desempenho animal.

Entenda Porque Trabalhar Com Proteinado é Importante

Pensar na suplementação dos animais nessa época do ano deixa de ser uma opção e passa a ser obrigação para aquelas fazendas que desejam operar com um mínimo de saúde financeira. É comum alguns pecuaristas “tirarem o pé do acelerador” durante o período da seca, esperando as chuvas para então o animal voltar a ganhar peso. Nesse cenário, nos deparamos com animais com baixíssimo desempenho ou até perdendo peso na fazenda, e o produtor cético de que está tudo bem.

Uma simples análise para checar o custeio da diária do animal permite enxergar o tamanho do prejuízo que a falta de produção traz ao caixa da fazenda. O produtor precisa assumir que um animal, para se fazer jus na fazenda, deve apresentar um GMD mínimo para se pagar, caso contrário, o mesmo não deveria estar ali.

Traduzindo isso em números, se considerarmos um custo do pasto de R$18,00 por cabeça (garrote), ou R$0,60 por dia, e uma arroba comercializada no valor de R$ 140 (garrote), ou R$4,67 por kg de peso vivo, temos que um animal em recria precisa ganhar 0,128 kg (R$0,60/R$4,67) por dia, para gerar uma receita equivalente ao custo do pasto. A conta piora quando colocamos o custo do ágio, da mão de obra, da sanidade, da nutrição, entre outros, na pauta. A somatória dessas demandas, fazem com que a necessidade de GMD para o custeio do animal na fazenda chegue a valores próximos de 0,250 a 0,300 kg/dia.

Esse GMD mínimo, que poderíamos considerar como o “aluguel” a ser pago pelo animal, é muito próximo ao valor esperado para o desempenho de um animal recebendo suplementação proteica de baixo consumo (0,1% do peso vivo) no período seco. Aqui cabe a indagação: mas por que fazer o uso do proteinado na seca então?

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Muito simples! Ele é o primeiro passo para tirar a fazenda do vermelho. Na grande maioria dos casos, o uso de sal mineral, ou sal ureado, não permite que o animal apresente GMD para pagar nem o custo do pasto, acumulando prejuízo que será descontado do lucro do período das águas. A falta de clareza do produtor, sobre o fato de que o pasto tem um custo, mascara a informação do prejuízo acumulado. Nesse caso, assume-se que o único custo com o animal está no suplemento colocado no cocho, levando à sensação de que o baixo desempenho obtido com os ureados se justificam pelo baixo desembolso diário com esse tipo de suplementação.

Temos então que, o uso de proteinado de baixo consumo durante o período seco é obrigatório para animais em recria, porém, para que seja obtido o máximo desempenho com esta estratégia, alguns pontos importantes devem ser respeitados.

O primeiro fator a ser considerado é que: o pasto, mesmo que seco, apresenta papel fundamental no desempenho dos animais. Ter massa de forragem seca e com boa estrutura é fundamental para se obter bons resultados zootécnicos. Nesse caso, a ideia de “quanto mais melhor” não se aplica. Um bom pasto de seca deve ter boa quantidade de folhas secas, ofertadas ao animal em uma estrutura de fácil formação do bocado. Pastos muito altos, passados, cheios de colmos e inflorescências, apesar de transmitirem a sensação de muita massa de forragem, apresentam estrutura de difícil acesso. Além da estrutura ruim para a formação do bocado, pastos altos apresentam maior susceptibilidade ao tombamento, reduzindo muito a eficiência de colheita do material que foi produzido. Sendo assim, o manejo do diferimento fará total diferença na qualidade do pasto de seca e os resultados obtidos com a suplementação.

Apesar de ser um ponto fundamental ao sistema de produção, ter boa massa de forragem não garantirá desempenho satisfatório dos animais, caso não seja utilizado o suplemento correto no cocho. Isso porque, um pasto diferido, apesar de ter oferta de forragem, apresenta baixo teor proteico e alta quantidade de fibra, o que resulta em baixa atividade dos microrganismos ruminais e redução da taxa de passagem. Sendo assim, um animal em pasto seco, além da dificuldade da oferta de alimento, apresenta baixo consumo devido a redução da taxa de fermentação do ambiente ruminal. Basicamente, o animal “enche” e reduz o consumo.

Um estudo muito interessante que mostra o efeito da adição de proteína em dietas de forragem de baixa qualidade pode ser visualizado na Figura 1. Nele, pode-se notar o efeito marcante da correção proteica sobre a digestibilidade da fibra e sua consequência sobre a taxa de passagem e consumo do animal, permitindo entender o porquê do proteinado na seca ser de uso obrigatório. É ele que coloca o rúmen para funcionar.

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Figura 1: Efeito da suplementação proteica sobre parâmetros animal. – Fonte: Oliveira et al., 2009.

Antes de seguirmos, é importante desmistificar um conceito errado que existe a campo. O que a turma fala é: “não posso dar proteinado, porque se não o gado come mais e o pasto acaba logo”. Na verdade, se a oferta de pasto for baixa, o uso de proteinado fará com que o animal aproveite melhor o pouco daquilo que está consumindo. Devemos lembrar que, em situação de pouco pasto, o consumo estará limitado pela baixa oferta de alimento, no qual o animal já está com 10 a 12 horas de pastejo (tempo máximo que um animal passaria pastejando), sendo incapaz de aumentar esse tempo com o uso do proteinado.

Visto o papel do proteinado, um segundo ponto importante a ser observado é a composição do produto (suplemento) que será utilizado. Uma formulação correta deve apresentar quantidade suficiente de proteína para otimizar o ambiente ruminal, além de um balanço preciso entre proteína verdadeira e ureia, permitindo a melhor eficiência de síntese microbiana. Precisamos lembrar que, o GMD de um animal é obtido a partir da energia gerada no processo fermentativo dentro do rúmen e do crescimento microbiano resultante deste processo. Ou seja, quanto melhor for a degradação da forragem e maior a síntese microbiana, maior seria o desempenho esperado.

Analisando um ensaio que avaliou diferentes relações entre proteína verdadeira e nitrogênio não proteico (ureia), no suplemento proteico em um ambiente de forragem de baixa qualidade, vemos que a melhor taxa de degradação e síntese microbiana foi obtida com a combinação de 70% de nitrogênio não proteico e 30% de proteína verdadeira (Tabela 1). Esse é um ponto importante de ser observado, uma vez que, formulações mais comerciais, tendem a apresentar maior quantidade de ureia, indo próximo ao limite permitido pelo MAPA, que é de 85%.

Tabela 1. Taxa de degradação e síntese microbiana em diferentes relações proteicas.

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1gramas microrganismos/ g carboidrato fermentado. – Fonte: Detmann et al., RBZ, v.40, p.1272-1279, 2011.

O terceiro e último ponto a ser destacado cabe à estrutura de cocho e ao manejo de fornecimento do produto. Basicamente, o cocho é o prato do animal, ou seja, não adianta termos uma ótima comida, se não tivemos prato para apreciá-la ou se a comida não chegar ao prato.

São poucos os estudos avaliando a necessidade de cocho por animal em função das diferentes estratégias de suplementação. No caso do proteinado de baixo consumo, por ser um produto com modulação de consumo, os animais não conseguem consumir grandes quantidade de uma única vez e, nesse caso, a necessidade de cocho que se tem trabalhado gira em torno de 6 a 10 animais por metro linear de cocho. Uma prática de campo para avaliar se está faltando cocho ou não, é observar o momento em que os animais chegam no cocho, avaliando se existe um número grande (mais que 5 a 10%) tentando chegar ao cocho pelas cabeceiras.

Um dos grandes problemas da falta de espaçamento de cocho adequado é o aumento da quantidade de “fundo” no lote, uma vez que, parte dos animais não serão suplementados de acordo. Por mais que haja o limitador de consumo, por serem animais gregários, quando o lote volta a pastejar, animais dominados acabam voltando antes de consumir o suplemento.

Outro problema recorrente no campo é a falta de controle ou negligência no fornecimento do suplemento. Conhecer a quantidade que está sendo consumida por cabeça/dia, é o primeiro ponto para avaliar se está ocorrendo tudo conforme o planejado. Nesse sentido, ter um tratador comprometido é fundamental. Um consumo acima ou abaixo do esperado deve demandar ajuste de formulação, no entanto, o baixo consumo deve ser investigado para saber se ele é decorrente de questões relacionadas à formulação ou falhas no processo de distribuição. É comum encontrar cochos vazios durante o giro pelos pastos da fazenda, principalmente em pastos de arrendamentos.

Para finalizar, cabe dizer que o uso do proteinado, independente do período, é a estratégia que melhor apresenta custo:benefício quando analisamos o desembolso adicional da estratégia, frente ao GMD adicional conquistado. Se descontarmos a despesa diária de um proteinado, o custo que já haveria com um ureado, temos um adicional que gira em torno de R$0,15 a R$0,20 por cabeça/dia. Assumindo um GMD adicional com o uso do proteinado de seca, em relação a um ureado, como sendo 0,200 kg e uma valor de arroba de garrote a R$ 140 (R$4,67/kg PV), a receita adicional seria de R$ 0,94 por dia (0,200 kg x R$4,67), ou seja, uma relação custo:benefício de 1:4 (1:5). Supondo ainda que o desempenho adicional conquistado seria metade do esperado, a conta ainda fica muito favorável e positiva.

Lembre-se que: existe um GMD mínimo que o animal deve apresentar para se fazer jus na fazenda e que, por vezes, uma estratégia vista como “barata” pode resultar em um grande prejuízo.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Matheus Moretti

Matheus Moretti

Matheus Moretti é Gestor Técnico de bovinos de corte na Agroceres Multimix

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2 Comentários

  1. ANDRE CEOLIN DABES disse:

    Boa tarde, Matheus. Há algum estudo relativo à redução na idade de concepção de nulíparas (bovinos de corte) dado o incremental no GPD por proteinados na seca? Quais os produtos voltados à recria de bezerras para reposição de plantel?

    • Olá, André!

      A estratégia nutricional utilizada para a recria das novilhas passa pela avaliação cruzada da qualidade do pasto e da velocidade que você precisa imprimir no GMD, a partir da definição da idade alvo para esses animais entrarem em reprodução. No caso de novilhas entrando em reprodução aos 12-14 meses de idade, pós-desmame, você precisará pensar em uma suplementação de maior consumo (ex.: suplemento proteico energético). Já no caso de prenhez aos 24 meses, o uso de proteinado associado ao manejo do pasto, tem permitido alcançar esse objetivo.

      Espero tê-lo ajudado. Obrigado pela pergunta.

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