Geração agPastto – Suplementação nas águas durante a recria: entendendo para aplicar

Suplementação nas águas durante a recria

Estamos no momento da “safra” das gramíneas forrageiras: o período das águas. Esse período é caracterizado pelo aumento da produção e da qualidade da forragem (desde que o manejo seja realizado de maneira correta), permitindo que os animais expressem melhor desempenho, em comparação ao período de seca. No entanto, como já explorado no texto: “O lucro latente do período das águas”, o desempenho dos animais, mesmo nessas condições favoráveis, não está otimizado, uma vez que existem deficiências na composição da forragem que limitam o desempenho dos animais. Nesse sentido, podemos buscar na estratégia de suplementação o aporte necessário para que os objetivos traçados sejam alcançados.

Podemos dividir o ciclo produtivo da carne bovina em três momentos distintos: cria, recria e engorda. Normalmente, um bezerro é desmamado por volta de 6 a 8 meses de idade, sendo a terminação o período final da vida do animal, com efeito direto no padrão de acabamento. Este, por sua vez, tem duração média de 90 a 120 dias.

O período de recria seria o ponto chave – quando pensamos no período (tempo) de produção -, já que ela pode ser realizada em 12, 24 ou mais meses, dependendo da estratégia nutricional adotada.

Apesar de ser um dos gargalos do sistema de produção, temos durante a recria o momento mais favorável à produção animal. Nessa fase, os animais estão jovens, depositando tecido muscular com um custo energético para deposição 4 vezes menor em relação à deposição de gordura (fase de terminação).

Suplementação - Agroceres Multimix Nutrição Animal

Figura 1: Mudanças na composição dos tecidos ao longo das fases produtivas (Fonte, NRC).

Visto que o período das águas constitui o momento de maior taxa de ganho de peso dos animais, por vezes, a adoção da estratégia de suplementação deixa de ser trabalhada, fazendo com que o produtor perca a oportunidade de aproveitar um ótimo caminho para explorar ganhos latentes, reduzindo o tempo de recria (12 meses ou menos). Esse caminho, permitiria proporcionar animais mais pesados para o início da terminação, com menor custo de produção.

Existem diversas estratégias de suplementação que podem ser empregadas durante o período das águas. A decisão da melhor estratégia a ser adotada deve ser baseada na meta produtiva a ser alcançada, na composição quantitativa e qualitativa do pasto, bem como na aptidão da fazenda.

A primeira pergunta deve ser sobre a definição do tipo de suplemento: Suplemento mineral, proteico e/ou energético? Utilizar aditivo, ou não?

Primeiramente, é preciso considerar que a proteína do capim no período de águas não é suficiente para suprir as exigências nutricionais dos animais. Diversas pesquisas têm apontado respostas positivas ao uso de suplemento proteico em pastos com proteína até 15% (pastos com valor igual ou superior a este podem ser obtidos, porém não são realidade da maioria dos pastos brasileiros). A resposta para tal fato reside no tipo de proteína contida no capim, sendo que boa parte é rapidamente disponível no rúmen ou então indigestível, causando deficiência desse nutriente. Vale lembrar que microrganismos ruminais necessitam de proteína e energia disponíveis em sincronismo para se desenvolverem e realizar a fermentação ruminal; e a energia do capim no período das águas eleva-se em até 80%, aumentando a exigência diária de proteína. Em situações em que o capim apresenta mais de 15% de proteína como, por exemplo, pastos com altos níveis de adubação, pastos de ILP, ou então cultivares com maior valor nutricional – i.e.: panincum -, a suplementação prioritariamente seria energética.

O suplemento pode ser tratado como um pacote tecnológico. Nesse pacote trabalha-se com um conceito muito mais que nutrição, busca-se combinar ingredientes, almejando o balanço perfeito entre proteína, energia, minerais e aditivos moduladores da fermentação ruminal.

Os aditivos moduladores da fermentação – em um passado recente – foram muito estudados e seus efeitos benéficos sobre o desempenho de animais suplementados a pasto, comprovados. Sendo assim, hoje em dia, é imprescindível sua inclusão nos suplementos para o período das águas (leiam também o texto: “Por que utilizar aditivos em suplementos para bovinos de corte no sistema a pasto?”). Esses aditivos têm por finalidade alterar a população microbiana do rúmen e modular os produtos da fermentação, reduzindo perdas de energia e proteína consumidas pelos animais, elevando o ganho diário. Na pratica, esses aditivos proporcionam ganhos adicionais na faixa de 60g a 120g.

Sabendo disso, podemos então falar das tecnologias de suplementação mais comumente utilizadas a campo, durante o período das águas.

Suplementação - Agroceres Multimix Nutrição Animal

A primeira estratégia que discutiremos será o uso do mineral enriquecido. Essa tecnologia tem como objetivo fornecer proteína, aditivo e minerais para os animais em uma estratégia de baixo consumo, aproximadamente 0,05% do PC dos animais. Para exemplificar, um animal com peso médio de 300kg consumiria cerca de 150g de mineral enriquecido, diariamente (metade do consumo de um suplemento mineral proteico). Essa é uma tecnologia de fácil implantação, pois a necessidade de cocho (Tabela 1) e a frequência de suplementação são semelhantes àquelas já utilizadas com sal mineral. Ressalta-se a necessidade de cocho coberto, uma vez que, se o produto molhar, pode fermentar e estragar no cocho.

Outro ponto é que o produto contém ureia que, quando diluída em água e ingerida pelos animais, pode ocorrer intoxicação.  O ganho de peso diário que se espera com o uso dessa tecnologia no período das águas é em torno de 80 a 120g acima do resultado esperado com o uso de sal mineral, ou seja, caso animais suplementados com sal mineral desempenhem 650g, animais suplementados com mineral enriquecido terão ganho de peso diário entre 730g a 770g. Esses resultados estão relacionados principalmente ao consumo de aditivo e também seu aproveitamento de forma mais constante, proporcionado melhor ingestão de minerais, diariamente. Sabe-se que animais que consomem apenas mistura mineral não têm ingestão diária. Nesse caso, visto a presença de farelos no produto, o animal teria um consumo mais regular.

Uma opção, caso a cobertura do cocho seja um problema, seria o uso de sal mineral aditivado (sal mineral + aditivos moduladores da fermentação). Essa opção refletirá em  resultados similares ao mineral enriquecido, porém, como não há disponibilidade de proteína nessa formulação, o desempenho dos animais tende a apresentar maior dependência da qualidade da forragem disponível. Durante todo o período de águas (210 dias aproximadamente), o uso de suplemento mineral enriquecido produz entre 0,57 e 0,87@ adicionais.

Tabela 1- Dimensionamento de cocho, de acordo com o tipo de suplemento.

Tipo de suplemento Área de cocho por UA mínima
Suplemento mineral/mineral enriquecido 4 a 8 cm lineares/UA
Suplemento mineral proteico 10 a 15 cm lineares/UA
Suplemento mineral proteico energético 20 a 30 cm lineares/UA
Ração 35 a 50 cm lineares/UA

 

Outra tecnologia bastante utilizada é o suplemento mineral proteico de baixo consumo (0,1% do PC dos animais), que também fornece aos animais proteína, aditivo e minerais. Um animal com peso de 300kg consumiria, por exemplo, cerca de 300g desse suplemento. Essa é um estratégia de fácil adoção na fazenda por não demandar grandes mudanças na frequência de distribuição do suplemento e também na área de cocho (10cm a 15cm lineares/UA). Se a salgação era feita semanalmente, com o suplemento mineral proteico é possível seguir o mesmo padrão. Caso haja estrutura, recomenda-se que o trato seja feito de 2 a 3 vezes na semana. Como estamos falando do período de águas e o produto será fornecido em dias alternados, a estrutura de cocho deve ser coberta. Aqui vale a ressalva da homogeneidade do lote, pois caso os animais apresentem grande variação de peso (variação de peso acima de 30kg em relação à média do lote), poderá haver maior quantidade de cabeceira e fundo no lote, devido ao efeito de dominância.

 A expectativa de diferencial de desempenho proporcionado pelo suplemento mineral proteico em relação ao sal mineral, independente da qualidade da forragem. Se nos basearmos no desempenho de animais recebendo sal mineral, ao utilizar o proteinado, tem-se observado ganhos adicionais próximos a 150g por cabeça por dia.

Exemplificando: caso um animal consumindo sal mineral apresente GMD de 400g, ao receber suplemento mineral proteico, o GMD passaria para aproximadamente 550g. Em outro cenário, considerando o GMD de 650g, animais suplementados com suplemento mineral proteico estariam desempenhando 800g.  Ou seja, a avaliação econômica dessa tecnologia deve ser baseada no valor investido contra o que será produzido adicionalmente. Em alguns casos, a avaliação econômica é feita de maneira equivocada, baseada no aumento proporcional do ganho.

Utilizando o exemplo acima, 150g adicionais em um GMD base de 400g, representa aumento de 37,5%, porém em um GMD de 650g, há aumento de apenas 23,07%. Como vendemos peso e não porcentagem, a análise deve ser feita sobre o GMD adicional promovido pela tecnologia. Com uso de suplemento mineral proteico durante todo o período de águas, seria produzido cerca de 1,07@ adicionais.

A utilização de suplemento mineral proteico energético também é uma boa opção durante o período das águas, em determinados casos devendo ser usado de forma estratégica. Além de fornecer proteína, aditivo e minerais aos animais, também há fornecimento de energia. O consumo de suplemento seria de 0,3%  do PC dos animais, ou seja, um animal de 300kg consumiria 900g de suplemento. A implantação na propriedade requer maior atenção em relação às demais tecnologias, pois é necessário pelo menos de 20cm a 30cm lineares de cocho/UA, visto a velocidade de consumo. No entanto, como o consumo é imediato, apesar de ser necessária maior área de cocho, ele não precisa ser coberto. Ainda, quanto maior é a área de cocho, menor são as interações agressivas entre os animais e maior é o consumo após o fornecimento de alimento (DeVries et al., 2004), resultando em melhor desempenho.

O fornecimento do suplemento deve ser feito diariamente, sempre no mesmo horário e, se possível, nos horários mais quentes do dia (entre 11h00 e 13h00). Nesse horário, os animais naturalmente estão em ócio, reduzindo assim, as chances de prejudicar o tempo de pastejo realizado de forma mais intensa no início e final do dia, ou seja, nos horários mais frescos.

Diferente do proteinado, o diferencial de GMD dos animais nessa tecnologia está intimamente relacionado à qualidade do pasto (composição química, massa, estrutura botânica e oferta). Em condição de pasto de baixa qualidade (abaixo de 10% de PB), em que o GMD com sal mineral seria abaixo de 500g, o diferêncial de GMD esperado em relação ao uso de sal mineral, estaria próximo a 300g. Já em pasto intermediário (10 a 15% de PB), com GMD obtido através do sal mineral, é próximo a 650g e o diferencial seria de aproximadamente 200g. Em pastos de alta qualidade (acima de 15% de PB), em que se observaria maiores ganhos apenas com sal mineral (1,0kg/dia), espera-se diferencial de GMD abaixo de 100g (Siqueira et al., 2013).

Com esse efeito de diferenciação, o GMD adicional esperado acontece devido ao “efeito substitutivo” promovido pela suplementação proteico/energética. Dependendo da situação, o animal deixa de comer pasto em função do consumo de suplemento. Assim, quando a forragem apresenta elevada qualidade e disponibilidade, como nos casos de altos níveis de adubação, pastos de ILP, ou então cultivares com maior valor nutricional – i.e.: panincum -, o uso dessa tecnologia deverá ser bem planejada.

Uma outra opção para a suplementação no período das águas é o uso de ração. Nessa opção, há o fornecimento de níveis de 0,6% a 1,0% de ração em relação ao PC dos animais, ou seja, um boi de 300kg estaria consumindo entre 1,2g a 3,0kg de ração, diariamente. Da mesma forma que o suplemento mineral proteico energético, a ração necessita de fornecimento diário, de preferência nos horários mais quentes do dia, porém, nesse caso, os cochos necessitam de estrutura de cobertura, pois o animal realizará mais de uma refeição ao dia, e o espaçamento de cocho deverá ser de 20cm a 30cm lineares/UA. Espera-se GMD entre 1,00kg a 1,2kg/dia, dependendo do nível de suplementação e da qualidade do pasto. Além do aumento do ganho individual, uma das principais vantagens desta tecnologia é proporcionar aumento significativo na taxa de lotação, elevando o ganho por área da propriedade. O fornecimento de ração ao nível de 0,6% do PC pode aumentar o GMD por área (kg/ha) em até 2 vezes em relação ao uso de sal mineral, e o fornecimento de ração na quantidade de 1,0% do PC poderá elevar o ganho por área em até 3,5 vezes em relação a suplementação com sal mineral.

Vale lembrar que nem sempre o melhor GMD é o melhor resultado econômico, e níveis elevados de suplementação (1% do PC) devem ter objetivos específicos, pois após o início de seu uso, nas próximas fases de produção os animais deverão receber níveis de suplemento iguais ou acima desses.

Lembre-se: A possibilidade de controlar o custo de produção está em nossas mãos. Por vezes, nos deparamos com situações em que houveram cortes de investimento que comprometeram desempenho e, consequentemente, elevaram o custo de produção. Adotar a tecnologia correta é o primeiro passo a ser dado, no entanto, o ajuste que deve ser feito porteira a dentro (cocho, distribuição, tipo de produto) é que ditará o sucesso da operação.

Agroceres Multimix. Nutrição Animal.

Rodolfo Fernandes

Rodolfo Fernandes

Rodolfo Maciel Fernandes é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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1 Comentário

  1. MOACIR GOMES disse:

    Senhor Rodolfo. muito interessante a sua teoria. O PAPEL ACEITA TUDO O QUE SE ESCREVE. Na pratica, qual o tipo de capim que contem acima ou mesmo até 15% de proteina por um periodo de 210. (periodo das aguas). Aqui no oeste da Bahia nem mesmo quem pratica a ILP, consegue tal proeza. quem diria os demais produtores apenas PECUARISTAS. salvo raríssimos OÁSIS no CERRADO e na CAATINGA com tifton 85 sob pivot central e complemento de feno de ALFAFA, isso mesmo, ALFAFA produzida em plena CAATINGA (quem diria hein, leguminosa rainha de clima temperado) na regiao de IRECE, bahia, sob pivot central o ano todo, conseguindo-se dez cortes por ano, quando no sul do Brasil se consegue apenas seis cortes e com a devida mineralizaçao, o seu conteudo UTÓPICO, pode-se tornar plenamente realizavel. de qualquer modo, muito obrigado pela provocaçao. Insisto. para melhorarmos os índices produtivos da nossa pecuária, temos que formar um boa rede de EXTENSAO RURAL e fazer concretamente as informaçoes importantissimas que dispomos chegar PORTEIRA ADENTRO. Caso contrário ficaremos apenas na RETORICA. Estamos aguardando o próximo conteudo. um abraço. mito obrigado.

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