Geração agPastto: TIP – Um panorama sobre a terminação intensiva a pasto

Quando buscamos alternativas para aumentar a lucratividade dos sistemas de produção de bovinos de corte, uma das principais variáveis que impactará nas análises de viabilidade certamente é a produção de @/ha/ano. O famoso discurso: “produzir mais com menos”, passa a ser obrigatório quando analisamos os números da pecuária moderna e eficiente.

Nesse contexto, hoje falaremos sobre a TIP (terminação intensiva a pasto), sendo essa estratégia, uma ótima alternativa para engorda de animais a pasto.

Grande parte dos conceitos que compõem a TIP – e que descreveremos a seguir -, nos possibilita fazer uma analogia (e comparação) ao sistema de confinamento convencional.

Dessa forma, o primeiro ponto que podemos elencar, corresponde a uma definição básica da TIP, que é: “Fornecer a mesma quantidade de concentrado (ração) que o animal recebe no confinamento, só que no pasto”. Uma das grandes vantagens da TIP, refere-se aos benefícios relacionados às facilidades operacionais desta técnica, sendo o principal ponto a desnecessidade de produção de volumoso (silagem, feno) na fazenda. Outro ponto que simplifica a operação é quanto ao fornecimento do trato (ração), que pode ser feito uma vez ao dia, diminuindo os custos com mão-de-obra e maquinários, o que evidencia a praticidade desse processo.

Apesar de ser uma técnica simples, os cuidados a serem tomados para a realização da TIP são similares aos empregados para o confinamento. Abaixo seguem alguns pontos fundamentais para o bom desenvolvimento da técnica:

  1. Formação de lotes: Assim como o confinamento, a apartação do lote de forma mais homogênea possibilita melhorias significativas no desempenho dos animais, uma vez que, os bovinos são animais gregários, e apresentam diferentes graus de hierarquia dentro de um grupo. Lotes entre 100 a 130 animais são considerados de tamanhos ideais para serem trabalhados na TIP. Grupos desse tamanho conseguem se reconhecer, definindo seus líderes e as relações entre os animais dominantes e liderados. O bom estabelecimento e homogeneidade do lote promove diminuição de brigas e competições por alimento, resultando em um consumo de matéria seca diário mais uniforme pelos animais e, consequentemente, melhora e similaridade em desempenho do lote como um todo.
  2. Consumo de ração: O consumo de ração na TIP pode variar em função da qualidade e oferta de pasto. Em termos gerais, o fornecimento de ração gira em torno de 1,5 a 2,0% do peso corporal dos animais. Para exemplificar: um animal que pesa 500 kg e recebe 2,0% do PC, terá um consumo de 10 kg de ração/dia.
  3. Adaptação: Um dos pontos de extrema importância para TIP – sem dúvida – é a adaptação à ração. Como já retratado em um outro texto da nossa coluna “Geração Confinatto”, o período de adaptação é imprescindível e pode definir o sucesso ou o fracasso da atividade. O ideal é fornecermos de maneira gradativa a quantidade de ração até atingirmos os valores finais, como no exemplo acima, 2,0% do PC. Abaixo, temos uma sugestão do protocolo para a adaptação dos animais:
    Nutrição Animal - Agroceres Multimix

    * Alterações no protocolo podem ser realizadas de acordo com recomendação do técnico responsável; ** Ajustar o fornecimento de ração de acordo com a evolução (GMD) do PC do animal.

  4. Números de animais por hectare: Uma das principais dúvidas que surge na implantação desse manejo é quanto ao número de animais que podem ser colocados em uma determinada área. Quanto maior for o fornecimento de ração (por exemplo: 2,0% do PC), maior será o “efeito substitutivo” (pasto por ração), possibilitando o aumento na taxa de lotação da área e, consequentemente, o ganho por área. Em média, pensando em produtividade por área, tem sido comum verificarmos valores entre 4 a 10 animais/ha, dependendo da disponibilidade e estrutura da pastagem.
    Nutrição Animal - Agroceres Multimix

    Figura 1. Aumento da taxa de lotação, promovido pelo efeito substitutivo.

  5. Espaçamento de cocho: Este tópico – que às vezes chega a ser negligenciado -, possui efeito direto na eficácia de todos os outros já discutidos. Uma instalação adequada de cochos é aquela que permitirá aos animais a oportunidade de consumirem ao longo do dia, valores similares de ração, mantendo uma média regular de consumo, com o objetivo de fazer com que o lote tenha o desempenho mais semelhante possível. Brigas e animais que não conseguem chegar ao cocho para se alimentarem é um bom indicativo de que a área de cocho pode não estar suficiente. Para termos um número fácil como base, têm-se adotado 3 animais para cada 1m de cocho.

 

Resultados:

Apresentada a técnica, normalmente somos questionados: “Ótimo! Possui vários benefícios, vantagens, mas vale à pena?”

Vamos então desenvolver um raciocínio para avaliar a viabilidade econômica da TIP. Para isso, podemos considerar um lote de 100 animais, com peso médio de 420 kg, em uma área de 20 hectares (lotação de 5 cabeças/ hectare). Para balizar nosso exercício, vamos considerar o valor do preço de compra da @ do boi magro (SP) de R$ 141,67 (referência SCOT Consultoria – 07/09/2017) e um custo da diária alimentar de R$ 6,50 (consumo de 10 kg de ração/ cabeça/dia, com custo de R$ 0,60/ kg), mais um custo operacional de R$ 0,50 centavos/animal/dia, totalizando uma diária total de R$ 7,00/ cabeça/dia.

Abaixo, segue o esquema dos dados de entrada dos animais:

Nutrição Animal - Agroceres Multimix

 

Considerando um ganho de peso diário (GPD) de 1,400 kg/animal e/ou 1,0 kg/carcaça/animal e um período de engorda de aproximadamente 90 dias (dados obtidos a campo), temos:

 

Fechando então nossa simulação com a análise econômica, teríamos:

Nutrição Animal - Agroceres Multmix

* @ do Boi Gordo (SP) R$ 143,50 (referência SCOT Consultoria – 07/09/2017).

Nutrição Animal - Agroceres Multimix

 

Como já comentado, uma taxa de lotação normalmente trabalhada na TIP é de 5 animais/ha, sendo assim, a multiplicação do lucro/animal (R$ 259,35) x 5 (taxa de lotação), gera um lucro/ha de R$ 1296,75 em um período de 90 dias.

Se pensarmos, desde que bem planejado, podemos explorar com a TIP até 3 giros durante o ano. Nesse caso, o lucro por hectare/ano poderia superar a casa dos R$ 3.000.

Algumas dúvidas podem surgir, tais como: “E se o animal não ganhar 1,400 kg de ganho de peso diário? ” ou “E se o rendimento de carcaça não for 55%?”. Então, avaliando as possíveis oscilações, é interessante sabermos qual o mínimo de desempenho para não termos prejuízo na atividade:

Nutrição Animal - Agroceres Multimix

Consumo concentrado | ração: 10 kg/animal/dia – Rend. Ganho: 70% + R$ 0,50 centavos (operacional).

As principais variáveis que impactam nos resultados da tabela acima são os preços dos insumos que irão compor a ração (concentrado), valor da @ do boi gordo (@ de venda) e os custos operacionais durante a realização da TIP.

Um detalhe importante no momento de analisar os resultados da TIP é entender a forma que o animal ganha peso nesse sistema. Devido ao fato de que o animal consumirá uma grande quantidade de ração e, posteriormente, consumir volumoso (pasto), a taxa de passagem do alimento no rúmen aumenta de forma considerável. Esse aumento na taxa de passagem faz com que o conteúdo de alimento que permanecerá dentro do rúmen seja diminuído e, consequentemente, reduzindo também o tamanho físico do rúmen, como podemos ver na foto abaixo:

Nutrição Animal - Agroceres Multimix

Foto 1: À esquerda, rúmen de um animal terminado em confinamento e a direita, de um animal proveniente do sistema TIP.

Nutrição Animal - Agroceres Multimix

Foto 2: À esquerda, conteúdo ruminal de um animal terminado em confinamento e a direita, de um animal proveniente do sistema TIP.

 

Trazendo essas informações para os resultados de ganho de peso diário, no sistema TIP, o fato do animal estar ganhando carcaça e perdendo conteúdo ruminal faz com que o ganho de peso vivo seja menor que os valores comumente encontrados em confinamento, gerando valores médios de 1,400 kg e 1,500 kg, respectivamente para TIP e confinamento. No entanto, quando analisamos o rendimento do ganho, ou seja, quanto de carcaça está presente no ganho de peso vivo diário, percebemos que os valores de rendimento do ganho para a TIP são maiores que 70%, isso quer dizer que a cada 1,400 kg de GPD, temos aproximadamente um ganho de carcaça por dia de 1,0 kg (1,400 x 70%). Já no sistema de confinamento, o rendimento do ganho tende a ser um pouco menor que no sistema TIP, com valores médios na casa de 65%. Logo, a cada 1,500 kg de GPD no confinamento, também temos aproximadamente 1,00 kg de ganho de carcaça/animal/dia. Estes números demonstram como os dois sistemas são bons.

Como considerações finais, é importante relembrar que o confinamento convencional e a terminação intensiva a pasto atuam de formas independentes, em que, não necessariamente um sistema é superior ao outro, mas ambas alternativas são eficientes no regime de engorda de bovinos de corte.

Recapitulando:

TIP é uma alternativa para a terminação de bovinos a pasto, em que podemos ressaltar a facilidade de adaptação ao sistema, aumento na produtividade por área, menor custo operacional e praticidade de manejo.

Agroceres Multimix. Muito Mais que Nutrição.

Arquimedes Júnior

Arquimedes Júnior

Arquimedes Júnior é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

VOCÊ TAMBÉM PODE CURTIR...

3 Comentários

  1. MOACIR GOMES disse:

    Muito interessante. Quanto mais alternativas, maiores possibilidades teremos de sucesso na nossa atividade. ótimo conteudo. muito orbigado. Mande o proximo.

  2. Oderman Oliveira Lima disse:

    Muito boa sua matéria Arquimedes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


4 + 8 =