Geração Confinatto: Boas práticas no manejo da ensilagem

A silagem é o principal alimento volumoso da dieta de animais confinados, assumindo importante papel em relação aos resultados obtidos.

Visto a sazonalidade climática dos países tropicais, a produção de silagem ocorre em determinadas épocas do ano, permitindo a produção e armazenamento do volumoso na fazenda. Dessa forma, no mínimo uma vez por ano, o processo de produção de silagem acontecerá na fazenda, sendo que, um erro durante sua produção será amargado até o próximo ano.

Sabendo que existe uma série de fatores que podem comprometer a qualidade do material conservado e a importância desse alimento na dieta dos animais, elaborar um bom planejamento para a confecção do silo é essencial para a formação de um bom estoque, que deve durar até que a nova safra de silagem seja feita.

Abaixo, seguem importantes pontos que devem ser considerados para o sucesso da produção de uma boa silagem. Lembrando que todas as fases do processo são importantes para se alcançar um bom resultado, desde a escolha do híbrido até o desabastecimento do silo.

Tipo e local do silo:

Existem diferentes tipos de estruturas de silo, como: silos de superfície, trincheira, bag, sendo que, para cada uma das opções existirão aspectos positivos e negativos.

A escolha do tipo e dimensionamento do silo que será utilizado na fazenda, deve levar em consideração a cultura que será ensilada (milho planta inteira, sorgo, capim, milho grão úmido), a quantidade ensilada e utilizada diariamente, área disponível e forma de abastecimento e desabastecimento do silo. Como dito, cada opção de silo tem suas vantagens e desvantagens. Por exemplo: silo do tipo trincheira tem a vantagem de possuir paredes laterais fixas, o que auxilia na compactação do material, mas, por outro lado, apresenta a desvantagem de ser fixo e ter pouca flexibilidade em relação à capacidade de armazenamento. Em contrapartida, o silo do tipo superfície apresenta flexibilidade para a escolha do local e tamanho de confecção, porém não permite obter o mesmo resultado de compactação que o silo trincheira.

Com esses pontos em mente o pecuarista deve avaliar os prós e contras de cada opção, ponderando o tipo de silagem que será trabalhada. Vale destacar que, além do tipo de silo, o dimensionamento de seu tamanho é fundamental, em que, deve-se analisar a quantidade de massa a ser ensilada e a projeção de consumo diário e, com isso, determinar o tamanho do silo de modo que a altura e largura permitam que seja feito um avanço diário da massa de forragem da ordem de 25 cm.

A localização do silo é outro ponto de atenção. Essa deve ser escolhida de maneira que a mesma auxilie no manejo diário da produção e fornecimento da dieta para os animais. Nem sempre confeccionar o silo próximo à roça que foi produzido é uma opção interessante, pois posteriormente a utilização da silagem pode ser feita em uma área distante, dificultando a logística e, muitas vezes, a conservação do material enquanto fechado.

Ponto de colheita:

Cada cultura tem seu ponto de colheita ideal, que deve ser respeitado para que as características desejáveis à ensilagem sejam alcançadas, permitindo boa fermentação do material e consequentemente boa conservação. O ponto de colheita não é assunto novo entre técnicos e produtores, existindo até mesmo um consenso geral sobre o melhor momento para colher o material do campo. No entanto, o que normalmente acontece é que se perde o ponto de colheita, não pela falta de informação, mas sim pela ansiedade em retirar o material do campo, e/ou falta de planejamento e manutenção do parque de maquinas, atrasando a colheita.

Quando pensamos na colheita antecipada, como por exemplo a planta de milho, impedimos que a planta (grão) acumule todo o amido, além de apresentar matéria seca (MS) abaixo do ideal (< 30%). Esses dois fatores em conjunto determinarão a qualidade da silagem produzida, uma vez que, a MS pode privilegiar diferentes grupos de microrganismos que se desenvolverão na massa ensilada durante o processo fermentativo, e quando ela é baixa, bactérias indesejáveis podem dominar o processo, aumentando as perdas e até mesmo a qualidade sanitária da silagem. Já o amido define a concentração energética do alimento, em que, silagens colhidas prematuramente apresentarão menos NDT do que as colhidas no ponto certo.

Por outro lado, a colheita do material passado, com MS acima de 38%, deve ser evitada, uma vez que, nesse cenário, aumenta-se a dificuldade em compactar o material, reduzindo a densidade da massa ensilada, além de o teor de MS afetar o desenvolvimento das baterias responsáveis pela fermentação e conservação do material, dificultando o processo fermentativo, como já citado. Altos teores de MS (> 40%) exigirão maior potencia do equipamento que está realizando a colheita, para manter o padrão do tamanho de partícula.

Temos então que a janela ideal para o corte de plantas de milho e sorgo seria quando a planta apresenta de 32 a 38% de MS. Sabendo disso é possível ir acompanhando a roça no campo e programar o início da colheita. Para exemplificar, vamos pensar em uma silagem de milho: normalmente usa-se como padrão de ponto de corte quando a linha do leite atinge1/2 a 2/3 do grão. Uma maneira de acompanhar a evolução da MS das plantas é com a mensuração da matéria seca da planta (é o ideal e mais preciso) por meio de amostragem do talhão.

Para auxiliar o planejamento do ponto certo para iniciar o corte, no caso da silagem de milho, quando chegamos próximo ao ponto de colheita, em condições climáticas normais, a matéria seca aumenta em média 0,5 ponto percentuais por dia, ou seja, se a amostragem do talhão apontou que a planta está com 29% de MS, temos aproximadamente 10 a 12 dias para chegar em 35% de MS e realizar o corte. Lembrando que essas medidas indiretas e práticas auxiliam na tomada de decisão, mas a medida direta de MS é a ferramenta mais exata. O valor de 0,5 pontos percentuais pode sofrer maior amplitude de variação em função das características climáticas de cada região.

Tamanho de partícula:

O tamanho de partícula interfere diretamente no processo de compactação da massa ensilada. Partículas menores e com tamanho homogêneo facilitam o processo de compactação, enquanto que partículas maiores apresentam maior resistência à compactação.

Um ponto para ser considerado é que a silagem assume papel importante na dieta do animal do ponto de vista de manutenção da saúde do ambiente ruminal, sendo o tamanho de partícula um dos principais pontos que confere efetividade à dieta, estando diretamente relacionado com a fibra fisicamente efetiva.

Quando pensamos em tamanho de partícula, temos que nos orientar sobre duas óticas: compactação e saúde ruminal. Se por um lado, quanto menor o tamanho, maior a compactação, por outro, precisamos – pelo menos – de um tamanho mínimo para que exista efetividade dentro do rúmen. O tamanho ideal de corte deve variar de 1 a 2 cm para qualquer forrageira a ser ensilada. Valores acima desse, além de dificultar a compactação, podem facilitar a seleção da dieta no cocho, causando desbalanço nutricional.

Para obtenção de partículas homogêneas, deve-se estar atento ao maquinário que será utilizado. Ele precisa ser condizente com o tamanho da operação, estar bem regulado e com as facas e contra-facas amoladas e reguladas. No caso da silagem de planta de milho é muito importante que os grãos sejam quebrados no momento da colheita e, para isso, o cracker não deve estar aberto. Lembrando que além do maquinário e sua regulagem, o teor de matéria seca da planta também influenciará o tamanho de partícula, pois materiais mais secos e com presença de muita palha dificultam a picagem.

Uma ferramenta que podemos utilizar para avaliar o tamanho de partícula da silagem é o conjunto de peneiras desenvolvido pela Universidade da Pensilvânia. Esse conjunto de peneiras indica qual o tamanho ideal da silagem para que se atenda as exigências de efetividade dentro do rúmen, além de permitir avaliar a homogeneidade dos tamanhos de partícula através da distribuição percentual entre as peneiras. É uma ferramenta importante na avaliação do tamanho de partícula e tomada de decisões para ajustes da colheitadeira.

Enchimento do silo:

O descarregamento do material colhido no silo deve ser feito de forma uniforme, evitando a formação de montes, sendo que, camadas de 20 a 30 cm auxiliam no processo de compactação.

Um ponto de extrema importância a ser considerado é que o enchimento do silo deve estar em sincronia com o processo de compactação, sendo assim, descarregar grande quantidade de material de uma só vez resultará em problemas de compactação e qualidade do material ensilado.

Quanto menor o tempo de confecção do silo, melhor seria, uma vez que o material cortado ficaria menos tempo exposto ao ar. Na grande maioria dos casos, tem-se que o processo de ensilagem demora alguns dias e, assim, o silo leva algum tempo para ser fechado. Nesse caso, se houver previsão de chuva ou, por algum outro motivo o corte for interrompido, seria aconselhável fazer uma cobertura temporária do material já armazenado.

Compactação:

A compactação é o processo responsável pela expulsão do oxigênio de dentro do silo, sendo ele de 1 a 1,2 vezes o turno de colheita. Quanto melhor for o processo de compactação do material, menor será a quantidade de oxigênio presente na massa ensilada, favorecimento a condição para que ocorra a fermentação e conservação do material.

Como já citado, existem vários fatores que influenciarão a compactação, como MS e quantidade descarregada. No entanto, o peso do trator e o tempo que ele permanece exercendo pressão sobre a massa são pontos chaves para o sucesso da operação. Nesse sentido, o tempo de compactação sempre deve ser o mesmo, ou até superior, ao tempo de colheita, ou seja, nada de ficar na sombra com o trator parado entre uma carga e outra. O trator que ficará compactando deve ter essa atividade como exclusiva, não podendo se envolver em outras ações. O peso do trator também precisa ser ajustado conforme a capacidade de colheita, ou seja, quanto maior a capacidade de colheita mais pesado deve ser o trator utilizado. Um bom valor de referência é trabalhar com um trator que pese, pelo menos, 40% da quantidade de forragem transportada por hora para o silo. Se necessário, pode-se pensar em utilizar dois maquinários.

Além do papel de expulsar o ar com eficiência dos silos, conferindo maior densidade ou massa especificas (kg de forragem/m3). Esses silos, no momento da abertura e no decorrer da utilização da silagem, pela boa compactação, dificultarão a entrada de oxigênio através do painel exposto, devido a menor “porosidade” do material, auxiliando assim no manejo pós abertura e conservação do material.

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Vedação:

Essa é a última etapa do processo de ensilagem, porém não menos importante. A vedação deve ser feita de maneira eficiente para que tudo o que foi feito nas fases anteriores não seja “perdido”. O papel da vedação na conservação do material ensilado é não permitir, ou reduzir ao máximo, a penetração de oxigênio para dentro do silo.

A utilização de uma lona de boa qualidade é um ponto que merece muita atenção, sendo recomendado trabalhar com uma lona de no mínimo 150 a 200 micras. As lonas pretas, comumente usadas nas fazendas, apresentam a desvantagem de apresentar maior absorção de calor, fazendo com que o material expanda durante o dia e contraia à noite, reduzindo assim a resistência do material e aumentando as chances de rasgos e furos. Além disso, a expansão da lona aumenta a permeabilidade ao oxigênio, devido aumento da porosidade. Por isso, as lonas de dupla face (um lado preto e o outro branco) têm ganhado cada vez mais o espaço na vedação de silos, devido a coloração branca ter menor absorção de calor, além de refleti-lo (muito importante o lado branco é o que deve ser voltado para o lado de fora no momento da vedação). Em relação a plásticos para cobertura e vedação, hoje o mercado tem apresentado outros tipos de materiais além do polietileno tradicional. Temos disponível também a poliamida, que promove a redução na permeabilidade do oxigênio, ou seja, é muito importante observarmos a qualidade e tipo de material que tem sido oferecido.

Para aumentar a efetividade da lona, pode-se utilizar de recursos que confiram maior proteção à cobertura, como a utilização de terra, capim, bagaço de cana, lonas velhas, pneus, saco de areia ou outros materiais. Vale ressaltar que devemos tomar cuidado para que esses materiais não perfurem a lona ou se tornem fontes de problemas na fazenda, como, por exemplo, a utilização de pneus, acumulando água ou virando ninho de roedores. Outra vantagem da “cobertura extra” é minimizar a entrada de ar no silo, durante a retirada do material, pois com o peso sobre a lona observamos que a entrada de ar entre a lona e a silagem fica dificultada, mesmo após a abertura do silo. Importante lembrar que essa proteção adicional não deve interferir no manejo diário da fazenda, não comprometendo o manejo de retirada durante o desabastecimento do silo.

Após uma vedação bem-feita, devemos inspecionar os silos com frequência para conferir se a lona não tem rasgos ou fissuras. Se possível, o local onde o silo foi feito deve ser isolado, de forma que dificulte a entrada de animais que possam danificar a lona. A vedação deve ser mantida até o momento da abertura do silo. Se a área onde os silos estão confeccionados for susceptível à entrada de animais (tatu, galinha, cachorro, etc.), uma opção relevante é cercar a área dos silos com cerca de arame e tela

Como vocês podem ter percebido, o processo de produção de uma boa silagem depende de diversos fatores, exigindo vários pontos de atenção, cada qual com sua particularidade. Por isso, programação e planejamento são pontos cruciais para o sucesso do todo o processo.

Por fim, vale destacar que, a obtenção de uma silagem de boa qualidade começa na escolha da forragem mais adequada para as condições da propriedade (capim, milho, sorgo, cana), assim como o híbrido ideal. Pensando na silagem de milho, atualmente temos no mercado muitas opções de híbridos especializados para produção de silagem e para produção de grão.

Primordialmente, o produtor deve conhecer as condições climáticas e de solo da sua região para iniciar a busca pelo híbrido a ser escolhido, lembrando de avaliar a produção de matéria seca, digestibilidade do material, produção de grãos e outros fatores que influenciem o valor nutritivo do material.

Após a escolha do material a ser trabalhado, a implantação e os cuidados com a roça terá influencia direta no resultado do material colhido. Assim, não adianta de nada optar por trabalhar com um híbrido de altíssima produção de grãos e/ou melhor digestibilidade, se não tomarmos os devidos cuidados com fertilidade de solo, adução e controle de pragas e doenças. Podemos dizer que o híbrido ideal é o de melhor adaptação ao ambiente que será plantado e que poderá ser conduzido dentro das exigências, pois a qualidade da forragem produzida é o primeiro passo para a produção de uma silagem de boa qualidade.

Agroceres Multimix. Muito Mais que Nutrição.

Anna Paula Roth Moretti

Anna Paula Roth Moretti

Anna Paula Roth Moretti é Nutricionista de Ruminantes na Agroceres Multimix.

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2 Comentários

  1. João Júnior disse:

    Muito bom o texto Ana, sou um grande admirador do trabalho da Agroceres sobre a disseminação do conhecimento.
    Só tenho um “questionamento” sobre a compactação, mais precisamente sobre o peso do trator, essa recomendação dos 40% é interessante, mas devemos analisar também o trator.
    Esse da foto é filipado e isso faz com que o peso se distribua sobre a superfície, afetando assim a compactação, mesmo possuindo o peso recomendado. Concorda comigo?
    Abraços

    • Olá, João Júnior!

      Muito válida a sua observação. Sim, sabemos que a área de compactação irá afetar a pressão de compactação, ou seja, quanto maior a área com o mesmo peso, menor será a pressão. Porém, os pontos que levantamos no nosso texto, em relação ao tempo de compactação e carga mínima ideal para compactação, quando atendidos de maneira eficientes vemos que os resultados na compactação do material são atendidos de maneira satisfatória. Em nosso texto queríamos alertar o produtor para a importância no tempo de compactação e peso do trator que muitas vezes são negligenciados.

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