Geração Confinatto: A importância do manejo de cocho no confinamento

A entressafra está chegando e com ela surgem as dúvidas corriqueiras sobre qual melhor estratégia para terminar os animais. Os desafios dessa fase se dão pelo aumento da exigência de energia para ganho, justamente no período do ano que acontece a redução na qualidade e quantidade da forragem consumida, resultando em baixo desempenho dos animais. Visto esse cenário, a adoção de um sistema intensivo para a engorda de bovinos já faz parte da grande maioria dos projetos pecuários modernos, em que, confinar os animais, é uma das principais opções. No entanto, a operação do confinamento exige altos investimentos e a margem é cada vez mais apertada, demandando produção em escala. Nesse ponto, cabe a máxima de que: no confinamento, cada detalhe fará a diferença. Sendo assim, começar o confinamento sem sanar todas as dúvidas operacionais e técnicas, tendo a certeza dos manejos e métricas a serem trabalhadas, é dar “sorte para o azar”.

Planejamento é fator essencial para todas as atividades e fases produtivas, e no confinamento não é diferente. Por se tratar de uma fase curta e que demanda alta taxa de ganho dos animais, erros não são aceitos. São vários os detalhes que podem influenciar o sucesso da operação antes, durante e após o início do confinamento, estando eles diretamente ligados ao lucro. Já discutimos aqui no agBlog sobre a importância da formação de lotes como sendo pontapé inicial para o início da operação. Comprar insumos de qualidade, de fornecedores idôneos, é mais um fator que, somada à formação de lotes, resultará em um bom começo da operação. O que será exposto a seguir é um ponto muito importante a ser trabalhado durante o confinamento: o manejo de cocho.

No confinamento, queremos que os animais apresentem altas taxas de ganho de peso, principalmente de carcaça, em curto espaço de tempo, correto? Para isso, precisamos garantir a eles a ingestão de alimento e água de qualidade. Sendo o acesso ao cocho a única maneira deles obterem alimento, temos que garantir área suficiente para que todos consumam a dieta de maneira equilibrada, garantindo que todos os animais tenham alimento adequado e consigam ter acesso a ele no momento que desejarem. Falar em tamanho de cocho pode parecer óbvio, mas na prática, é comum nos depararmos com currais onde muitos animais que não conseguem ter acesso correto ao alimento, resultando em despadronização do lote.

Vários são os processos realizados até que o alimento chegue a ser consumido pelo animal. Primeiramente, é feita uma formulação para atender as exigências para determinado ganho de peso a partir dos ingredientes disponíveis na fazenda. Essa formula é passada para o funcionário, que colocará os ingredientes para misturar no vagão e depois distribuirá para os animais. Basicamente, são essas as etapas da produção ao fornecimento de alimento, fazendo parecer simples o arraçoamento de bovinos confinados. O problema nasce quando vemos que pequenos detalhes na produção e/ou distribuição podem afetar o comportamento ingestivo dos animais e, com isso, roubar pouco a pouco o ganho predito.

São inúmeros os pontos que podem gerar desvios, como: adição de algum ingrediente a mais ou a menos do que o exigido na batida; problemas na balança; má distribuição no cocho; problemas de mistura; seleção pelos animais; sobreposição de alimentos, etc.

Visto que a alimentação tem influência direta no ganho dos animais, temos que pensar no que podemos controlar e ajustar para que essa influência seja a melhor possível. A principal rotina que deve ser adotada é a medição. Medir o que foi produzido, quanto de ração foi fornecida, dar notas para o que sobrou de ração, realizar ajustes no fornecimento e garantir melhor consumo para os animais evitando desperdícios. Este último, é um ponto que por vezes não é dado a devida atenção. Falar em desperdício é falar de dinheiro jogado fora. Todo mundo faz conta do dinheiro que desembolsa, poucos fazem do que não enxergam.

Assumindo uma conta simples, considere um confinamento de 1.000 bois, com cada animal consumindo em média 10 kg de MS/dia, a um custo de R$ 0,55/kg de MS. Somado esses valores, o custo por animal por dia, somente com alimentação (sem operacional) será de R$ 5,50/dia. Considere um desperdício de 5% (R$5,50 x 5%) e note o quanto de dinheiro está sendo perdido em função do mau manejo de cocho, ou seja, a ração foi produzida e fornecida, mas não foi consumida, não virou carne (Figura 1).

Figura 1. Relação entre a porcentagem de perdas de ração em kg/MS/dia e o valor dessas perdas em um confinamento de 1.000 cabeças, com os animais consumindo 10 kg MS/dia.

Essas perdas muitas vezes não são contabilizadas, drenando o que seria lucro para o produtor. Nesse caso, o que tem sido preconizado é trabalhar com o manejo de cocho limpo, fornecendo alimento para que o animal consuma o necessário, não havendo desperdício e nem falta de comida.

Como saber então se ele não está com fome? Simples, observe o comportamento antes do início do trato. Sugere-se que, no momento do trato, 25% dos animais estejam enfileirados na linha do cocho, prontos para comer; 50% estejam de pé e se dirigindo ao cocho e; 25% devem estar se levantando e se espreguiçando. Isso quer dizer que cocho limpo não significa que os animais estão passando fome, e a observação do comportamento deles dirá muito sobre isso. Cocho lambido, ou, todos animais na beirada do cocho e/ou agitados esperando o alimento, é sinal claro de fome.

Figura 2. Animais com fome no momento do trato.

A técnica utilizada para fazer ajustes do fornecimento de alimento é a leitura do escore de cocho. O primeiro passo é ter um avaliador/responsável treinado, que dê notas para as características de cocho, de acordo com um critério pré-estabelecido, sendo a leitura normalmente feita na parte da manhã, uma hora antes do primeiro trato. Para aumentar a precisão, podem ser feitas duas leituras, sendo uma no período da noite do dia anterior, e a outra 2 a 3 horas após o último trato (servindo como baliza da leitura da manhã).

As notas que preconizamos normalmente vão de -2 a 3, porém, nada impede que a fazenda preconize outras notas, o importante é que o avaliador entenda o que cada nota representa e que elas permitam ajustar o fornecimento da dieta de forma correta, mantendo um padrão ótimo de consumo.

Abaixo, podemos ver um modelo de recomendação:

Animais em dietas de adaptação e crescimento:

Leitura Noturna

Comportamento Manhã

Leitura Manhã

Nota

Ajuste

Vazio

Maioria em pé, muita fome

Limpo, lambido

-2

+ 15%

Vazio

Alguns em pé, fome

Limpo, lambido

-1

+ 10%

Vazio

Alguns em pé

Limpo, sem lambida

-1

+ 10%

Normal

Alguns em pé

Limpo, sem lambida

0

+ 5%

Normal ou cheio

Deitados e calmos

Limpo, sem lambida

0,5

+ 2,5%

Normal ou cheio

Deitados e calmos

Pouca sobra

1

=

Cheio

Deitados e calmos

Com sobras

1,5

– 2,5%

 

Animais em dietas de terminação:

Leitura Noturna

Comportamento Manhã

Leitura Manhã

Nota

Ajuste

Vazio

Alguns em pé, fome

Limpo, lambido

0,5

+ 2,5%

Vazio

Alguns em pé

Limpo, sem lambida

0,5

+ 2,5%

Normal

Alguns em pé

Limpo, sem lambida

1

=

Normal ou cheio

Deitados e calmos

Limpo, sem lambida

1

=

Normal ou cheio

Deitados e calmos

Pouca sobra

1

– 2,5%

Cheio

Deitados e calmos

Com sobras

1,5

– 5%

Figura 3. Diferentes escores de cocho.

Para facilitar a tomada de decisão e ajuste de nota, é preciso entender que, nas dietas de adaptação há aumento gradativo do consumo, até que o animal estabilize e entre na dieta de crescimento/terminação. Após esse período, o consumo do animal continuará aumentando, mas de forma sútil, sendo os ajustes feitos pelo escore de cocho.

O manejo de escore de cocho ideal, além de diminuir muito as perdas com sobras, também é importante para manter um bom padrão de consumo dos animais em todos os dias. Deve-se evitar notas que aumentam muito o consumo em dias consecutivos, pois, na prática, após uma rápida subida há uma queda brusca, o que resulta em uma curva de consumo que mais parece um eletrocardiograma, cheio de variações.

Essa variação de consumo não é saudável para o boi (muito menos para o bolso do produtor). Se um dia o consumo for excedido, pode haver grande aumento nos ácidos graxos voláteis e produção de ácido lático no rúmen em pouco tempo, reduzindo o pH drasticamente e causando uma acidose subclínica e um desconforto no animal. A consequência disso é que, no outro dia ele não come mais aquela mesma quantidade, e aí é sobra sendo jogada fora. Esse padrão de variação é visível e muito comum em confinamentos que não têm manejo adequado de cocho e rotina de trato, havendo prejuízo no desempenho do animal e perda de dinheiro com a dieta que sobrou e vai ser descartada.

O bovino gosta de rotina, isto já é sabido e foi discutido aqui outras vezes. Essa rotina, no caso do manejo de cocho, significa receber o trato todos os dias, no mesmo horário e da mesma forma que no dia anterior. Portanto, programe para que os animais recebam os tratos sempre em horários similares todos os dias, que a mistura seja dosada corretamente e a quantidade fornecida seja aquela que a nota do escore de cocho apontou. Por fim, garanta uma distribuição homogênea por todo o cocho para garantir acesso e padrão de consumo para todos os animais.

No confinamento a palavra observação é essencial para o sucesso, portanto, no decorrer do processo, observe todos os dias o comportamento do animal, ele dirá se está indo tudo bem ou não. Observe como está sendo feita a mistura dos ingredientes, se a proporção está correta, como está sendo fornecido o alimento no cocho e se a quantidade fornecida está correta, faça o escore de cocho, determine a quantidade de ração por baia e mantenha esse ciclo todos os dias. Por fim, saiba que, ao se atentar a todos esses processos, a parte financeira e os resultados serão muito melhores.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Renan Miorin

Renan Miorin

Renan Miorin é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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3 Comentários

  1. Diogo Almeida disse:

    Parabéns Renan pelo excelente texto.
    Sobras de dieta no cocho de um dia para o outro devem ser retirados para fornecimento de nova dieta?
    Desde já agradeço a atenção.

    • Renan Miorin Renan Miorin disse:

      Olá, Diogo! Obrigado pela pergunta.

      Temos recomendado a limpeza do cocho antes do fornecimento da nova ração pela manhã, principalmente devido à umidade da dieta e quantidade de nutrientes fermentescíveis que ali no cocho encontram condições ideais para fermentar, diminuindo a qualidade do alimento. Bovinos são sensíveis a mudanças de dieta e a odores, sendo assim, o cheiro do alimento fermentado pode resultar em queda do consumo dos animais, reduzindo também o desempenho. Por isso, preconizamos o manejo de cocho limpo ou com o mínimo de sobras por meio da leitura de cocho, devendo sempre ser dado atenção ao comportamento do animal para que ele não esteja com fome no trato da manhã. Isso evita desperdício de ração e há um maior controle do consumo do animal.

      Espero ter ajudado. Abraço!

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