Geração Confinatto: Por que devo me preocupar com o período de adaptação?

Período de Adaptação: Devo me preocupar?

Quando analisamos a evolução das dietas praticadas no confinamento ao longo dos anos, fica evidente as mudanças ocorridas nos perfis das formulações (Figura 1). Nesse contexto, o aumento do uso de concentrado, tornando as dietas mais adensadas, demanda maiores cuidados nutricionais e, sendo assim, o período de adaptação torna-se de fundamental importância.

Evolução do uso de concentrado. Período de Adaptação

Figura 1. Evolução do uso de concentrado.

Um ponto que ajuda a entender o porquê dessa mudança no perfil das dietas é a redução das margens obtidas com a atividade, provendo ao sistema a necessidade de produção em escala. Nesse sentido, o aumento do tamanho das operações de confinamento fez com que o uso de volumoso passasse a ser um problema do ponto de vista operacional, sendo reduzido seu uso e inclusão nas dietas. Para exemplificar: já pensou em produzir silagem para ser utilizada em 30% da dieta em um confinamento com 20 mil animais? Seria um grande desafio.

Visto então a necessidade de trabalharmos com dietas com maior quantidade de concentrado, e sabendo que transições abruptas de dietas com grande quantidade de carboidratos prontamente fermentáveis podem levar o animal a quadros de desordens metabólicas (OWENS et al., 1998), destacamos a necessidade de maior atenção na fase inicial do confinamento, conhecido como período de adaptação.

Do ponto de vista nutricional, o período de adaptação é considerado um momento crítico, uma vez que qualquer erro nas práticas de manejo nutricionais pode promover ou prejudicar o desempenho e saúde animal. Levando em consideração que no Brasil o tempo de confinamento normalmente é mais curto, a fase de adaptação representa em média 20% do tempo total de cocho (em média, tempo total entre 90 a 120 dias) para a maioria dos bovinos confinados.

Não há “receita de bolo” quando falamos em quanto tempo deve durar o período de adaptação, no entanto, é comum presenciarmos os confinamentos adotando períodos entre 14 a 21 dias para essa fase. O histórico alimentar dos animais, o número de dietas que serão administradas durante o ciclo do confinamento e o nível de inclusão de concentrados a serem atingidos na dieta final, definem se o período de adaptação será maior ou menor.

Quando os animais estão acostumados com dietas à base de alimentos volumosos, a adaptação para dietas com alta proporção de alimentos concentrados pode exigir um tempo necessário para as mudanças no ambiente ruminal, com o objetivo de não comprometer o desempenho dos animais. Devido a esses fatores, as dietas inicias são utilizadas para adaptar a microbiota ruminal de bovinos em confinamento. Esse é o período crucial para estabelecermos o desenvolvimento de papilas ruminais, que serão responsáveis por garantir uma melhor absorção da energia proveniente da fermentação ruminal, evitando acúmulo de ácidos no rúmen que podem predispor problemas metabólicos como acidose ruminal. Estes pontos ressaltam a importância em aumentarmos a inclusão de concentrado na dieta de forma gradativa.

Do ponto de vista de manejo, a fase inicial também requer grande atenção, uma vez que: a mudança de ambiente, transporte por longas distâncias, formação de lotes, estabelecimento de hierarquia e mudança de dieta, podem levar o animal a um quadro de estresse e morbidade, como exemplificado abaixo:

Morbidade - Período de Adaptação

Fonte: Millen et al, 2009.

O grande problema de um animal estressado é que ele apresentará queda de consumo, refletindo em menor desempenho e alterações metabólicas que podem resultar até em morte dos animais. Nessa fase, temos que ter grande preocupação com o consumo, principalmente de minerais.

Fontes de Estresse - Período de Adaptação

Desta forma, a adaptação de bovinos em confinamento não se restringe apenas em uma adaptação fisiológica a determinada dieta, mas sim ao ambiente ao qual o animal foi levado e que se caracteriza como “totalmente diferente” daquele com que o animal foi adaptado para sobreviver ao longo dos anos.

Em resumo, quando falamos em adaptação, não estamos nos referindo exclusivamente à dieta, mas sim ao contexto geral: dieta com alta inclusão de concentrados, hierarquia do lote, fechamento dos animais em uma baia, condicionamento dos animais a buscar alimento e água em cochos, entre outros fatores. O manejo adequado do arraçoamento é tão importante para o equilíbrio ruminal, quanto a formulação e o ajuste das dietas, além da rotina operacional do confinamento e instalações. A rotina diária de fornecimento da dieta deve ser cuidadosamente estabelecida, respeitando o espaçamento de cocho que garanta acessibilidade adequada dos animais aos alimentos (em média, 30 cm/cabeça), metragem adequada que não induz abarrotamento de animais (em média, 13 metros²/cabeça) e fornecimento de água limpa e bebedouros que proporcionem vazão satisfatória.

Horários dos tratos, sequência de fornecimento nos currais de engorda e monitoramento de consumo, são fatores fundamentais para o bom desempenho dos animais. É uma frase simples, mas ao mesmo tempo tão verdadeira: “Boi gosta de rotina”.

Independentemente do tipo de adaptação que será empregado (dentro do confinamento, a pasto ou ambos), o principal objetivo a ser alcançado nesse curto espaço de tempo é a não ocorrência de distúrbios alimentares e, consequentemente, o aumento do consumo de matéria seca o quanto antes.

Lembre-se:

O prejuízo econômico e os transtornos causados por erros na fase de adaptação são suficientemente capazes de definir o sucesso ou o fracasso em um confinamento de bovinos.

O correto manejo nutricional, através da adoção de programas de adaptação durante o período inicial, contribui para uma maior regularidade no consumo, em uma menor faixa de tempo, amenizando o estresse a que os animais são submetidos quando migram do regime de pasto para o confinamento.

Agroceres Multimix. Nutrição Animal.

Arquimedes Júnior

Arquimedes Júnior

Arquimedes Júnior é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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3 Comentários

  1. Gustavo de Almeida Oliveira disse:

    O texto nos explana as ideias básicas que se deve seguir. Ótima dissertação, obrigado!

  2. Deborah França Pires disse:

    Ótimo texto, de fácil leitura e compreensão, obrigada!

  3. MOACIR GOMES disse:

    muito oportuna essa matéria. muito obrigado. estou aguardando a próxima.
    MOACIR GOMES.

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