Geração Confinatto: Quando fazer uma dieta de crescimento?

O confinamento é uma ferramenta essencial para um sistema de produção intensivo de bovinos de corte. Dentre suas necessidades, a principal é: formular uma dieta que atenda as exigências de proteína e energia do animal, respeitando as mudanças que ocorrem em sua composição corporal, visando otimizar seu desempenho.

Uma etapa fundamental, que antecede a dieta que será trabalhada, é a adaptação. Nela, visamos adaptar não só a microbiota ruminal, como também desenvolver as papilas ruminais, aumentando a capacidade absortiva ruminal, evitando o acúmulo de ácidos e consequente queda do pH. Sendo assim – tradicionalmente -, durante o confinamento tem-se trabalhado com duas dietas: uma de adaptação e uma dieta final.

Quando avaliamos o peso de entrada dos animais no confinamento, vemos que, nos últimos anos, os animais têm chegado ao confinamento com peso corporal mais baixo (360 a 380kg) e, devido ao custo da reposição (ágio), necessitam ser abatidos mais pesados. Nesse cenário, trabalhar com dietas com alta densidade energética – como as trabalhadas para engorda – podem levar ao chamado “boi bolinha”, uma vez que o consumo desbalanceado entre energia e proteína limitam a deposição muscular e favorecem a deposição de tecido adiposo. Esse contraponto prejudica o aproveitamento da carcaça do animal devido a antecipação da deposição de gordura, o que justificaria a adoção de uma dieta intermediária/crescimento.

 Para facilitar o entendimento do exposto acima, basta olharmos a forma como ocorre o crescimento do animal e a dinâmica de deposição de tecidos em seu corpo. Podemos pontuar o crescimento dos bovinos em três momentos: nascimento, puberdade e maturidade (Figura 1). Vemos que, durante o nascimento até a puberdade, há um crescimento acentuado de tecido ósseo e, principalmente, muscular. Após a puberdade até a maturidade, ocorre desaceleração no acumulo de músculo e aumento no acúmulo de gordura corporal, sendo que, após a maturidade, ocorre basicamente o acúmulo de gordura.

Figura 1- Curva de crescimento dos tecidos corporais. Adaptado de Luchiari Filho (2000).

Quando avaliamos – quimicamente – as frações que compõem o corpo do animal, podemos dividi-las em: água, proteína, gordura e cinzas. Ao nascer, os animais apresentam em sua composição corporal mais de 74% de água e apenas 2,5% de gordura. À medida que o animal cresce, e o peso à maturidade se aproxima, ocorre a redução na proporção de água e proteína, além do aumento considerável na proporção de gordura (Figura 2).

Figura 2 – Composição corporal de acordo com o peso dos animais. Fonte: NRC.

Fica evidente que existe uma correlação entre o peso dos animais e composição corporal, sendo que, fatores como: idade, genética, condição sexual, consumo de energia, entre outros fatores, influenciarão a dinâmica de deposição dos tecidos.

A composição corporal dos animais é de suma importância na escolha da dieta a ser formulada, pois é baseada na formação e deposição dos tecidos que são definidas as exigências nutricionais do animal.

Precisamos entender ainda que, em um mesmo consumo de energia metabolizável, a eficiência de uso da energia para formar gordura (lipídeos) é cerca de 41% mais eficiente em relação à eficiência de uso de energia para formação proteína no corpo do animal (Tabela 1). No entanto, ao formar proteína, sua deposição acontece na forma de tecido muscular e este, ao ser sintetizado, agrega moléculas de água à sua estrutura, aumentando seu peso e apresentando uma composição de cerca de 75% de água. Sendo assim, para um mesmo consumo de energia metabolizável, a deposição de músculo é, aproximadamente, 4 vezes maior em relação à deposição de gordura (mesmo sendo mais eficiente do ponto de vista químico).

Tabela 1 – Eficiência de deposição de energia, peso de componentes e dos tecidos, de acordo com o tecido acumulado (Fonte: Lana, 1997).

Energia metabolizável disponível

Energia

Componentes químicos

Tecidos

Para deposição de proteína (10 kcal)

3,5 kcal

(35%)

0,64 g de proteína

2,8 g de músculo

Para deposição de lipídio (10 kcal)

6,0 kcal

(60%)

0,64 g de

lipídio

0,7 g de tecido adiposo

Conhecendo então a dinâmica de deposição de tecidos e sua correlação com as exigências nutricionais dos animais, é possível entender que: quando os animais atingem seu peso à maturidade – maior proporção de gordura em relação à proteína no ganho -, existe a maior necessidade de consumo de energia pelos animais. Em animais Zebuínos, que apresentam apenas traços de marmoreio, isso ocorre quando o percentual de gordura atinge cerca de 22% da composição corporal. Nessa situação, a demanda para proteína metabolizável para ganho seria reduzida.

Visto que uma estimativa exata da composição corporal exigiria que o animal fosse abatido, uma forma prática – a campo – para estimar a composição corporal dos animais seria o uso de ultrassom, realizando a apartação dos animais em lotes homogêneos para que se possa discutir sobre qual melhor tipo de dieta utilizar. Uma opção ainda mais prática no dia a dia do recebimento dos animais e formação dos lotes, seria a classificação dos animais por frame (tipo) e escore de condição corporal, o que facilitaria, e muito, a definição da melhor dieta a ser trabalhada.

Vale aqui lembrar que animais debilitados, que passaram por restrição alimentar antes de chegar ao confinamento, durante certo período, também necessitam de uma dieta diferenciada. Precisamos lembrar que, durante o período de restrição alimentar, há uma redução no tamanho dos órgãos metabólicos, que representam apenas aproximadamente 9% do peso corporal e, no entanto, são responsáveis por quase 50% do gasto energético dos animais. No início do confinamento, esses animais apresentam menor exigência de energia para mantença e maior deposição de proteína, ou seja, exigem uma dieta mais proteica, justificando o uso da dieta para crescimento.

Normalmente, as dietas de crescimento são formuladas com teores de proteína que variam de 15 até 17%, dependendo do peso de entrada, categoria animal, ganho esperado, condição sexual, etc. Outro ponto importante na formulação da dieta de crescimento é o perfil da proteína utilizada.

Podemos dividir a exigência proteica dos animais em duas frações: aquela degradada no rúmen (PDR); e a proteína que não é degradada no rúmen (PNDR). A PDR é a fração da proteína do alimento que utilizada para a síntese de proteína microbiana, e a PNDR é fração da proteína que chegará diretamente ao intestino do animal, podendo ou não ser absorvida em seu metabolismo. A exigência de proteína metabolizável dos bovinos, que é a fração utilizada pelo animal para o acumulo de tecidos, é representada pela soma da proteína microbiana digestível + PNDR digestível. Quanto mais jovem o animal, maior é a sua necessidade de proteína de PNDR. Dessa maneira, aumentar a proteína total da dieta de crescimento por meio do aumento da inclusão de ureia (que é uma fonte exclusiva de PDR), não seria uma opção eficaz. Sendo assim, em dietas de animais em crescimento, devemos utilizar fontes de proteína verdadeira que contem maiores frações de PNDR, como o farelo de soja, por exemplo.

Podemos então concluir que a realização da dieta de crescimento é dependente de diversos fatores, sendo, principalmente, correlacionada com a composição química corporal do animal na entrada do confinamento, que por sua vez tem relação direta com o peso de entrada. Não só a quantidade de proteína utilizada na dieta, mas também o perfil da proteína disponível, são pontos cruciais durante a formulação da dieta de crescimento.

Um último alerta seria sobre a avaliação operacional em se trabalhar com três dietas no confinamento. Por vezes, os ganhos obtidos com a adoção de uma dieta de crescimento podem ser perdidos pelos desvios operacionais causados por sua adoção.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Rodolfo Fernandes

Rodolfo Fernandes

Rodolfo Maciel Fernandes é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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1 Comentário

  1. Laziele Albuquerque disse:

    Muito Boa a matéria

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