LactAção: Manejando vacas em lactação para elevar o consumo de matéria seca

O consumo de alimentos de cada animal é o primeiro fator limitante para a produção de leite. Em nutrição de ruminantes expressamos esse consumo em termos de matéria seca (MS), pois as dietas apresentam diversos teores de umidade devido aos seus diferentes componentes (silagem de gramínea, feno, pré-secado, silagem de grão úmido, subprodutos da agroindústria, entre outros), o que prejudicaria a comparação em relação aos diferentes tipos de dietas.

Quanto mais MS a vaca ingere no início de lactação, mais nutrientes estão disponíveis para atender suas necessidades de manutenção e produção. Exemplificando: para cada kg de consumo extra, têm-se possibilidade de aumento de produção de 1,8 a 2,2Kg de leite a mais. Logo, o gerenciamento e monitoramento do programa alimentar é imprescindível para que o potencial genético seja expressado. Uma outra forma de aumentar o consumo de energia, sem elevar o consumo de MS, é pela elevação da densidade energética da dieta. Porém, essa estratégia possui um limitante, em decorrência da necessidade de uma quantidade mínima de fibra (química e física) para uma boa manutenção de saúde ruminal e da concentração de gordura no leite. Uma forma prática de monitorarmos a “fração física” da fibra, é a utilização das peneiras PennState®. O efeito da “fração química” dependerá da qualidade dessa fibra, afetando a taxa de degradação, consequentemente o consumo.

Quais os fatores que afetam o consumo de MS?

A ingestão de MS é baseada principalmente na produção de leite e no peso vivo. A produção de leite é mais importante do que o peso nessa determinação. Logo, a mensuração individual da produção de leite é muito importante. O ideal seria que essa mensuração fosse realizada diariamente, assim teríamos melhor acompanhamento do pico de produção, da persistência de lactação e da saúde das vacas no transcorrer dessa lactação. Pela dificuldade de avaliação diária, deve-se então realiza-la a cada 15 dias ou no máximo 30 dias de intervalo.

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Novilhas apresentam menor consumo em relação às vacas em decorrência de seu menor tamanho. Rebanhos com elevada representatividade dessa categoria podem apresentar consumo menor do que o esperado. Animais no início da lactação estão em balanço energético negativo (BEN), ingerindo menos alimento do que animais em estádios mais avançados (ver tabela 1). Logo, a separação de lotes de novilhas e vacas recém paridas é uma excelente estratégia para estimular o consumo.

 Tabela 1 – Consumo de matéria seca (kg/dia) após parição em novilhas (550kg) e vacas (640kg). Adaptado do NRC 2001.

Semana Novilhas   Vacas
550kg PV   640kg PV
1 14,1 16,4
2 15,9 19,1
3 17,3 20,9
4 18,2 22,3
5 18,6 23,6

 

O tempo para atingir a ingestão máxima de MS pode levar de 5 a 10 semanas a mais do que o tempo para atingir a máxima produção de leite (pico). O período desse intervalo de ingestão, depende muito das dietas de transição, sendo que, o objetivo principal dessas dietas é de prevenir distúrbios metabólicos como febre do leite ou cetose, que deprimem o consumo. Essas dietas também têm como objetivo “adaptar” o rúmen para melhorar a absorção dos produtos de fermentação e elevar sua capacidade física. Logo, ações que estimulem o consumo são tomadas já no período de transição para que esse efeito de BEN seja minimizado.

As vacas em início de lactação precisam ser estimuladas para o máximo consumo de MS. A gordura protegida é uma excelente estratégia para elevar a densidade energética da dieta. Porém, elevada concentração de gordura na dieta (acima da recomendação) e/ou vacas parindo gordas, decorre aumento da concentração de ácidos graxos livres no sangue. O resultado é diminuição no consumo.

Com o uso de BST (somatotropina bovina), o consumo de MS das vacas eleva-se principalmente na terceira semana de sua utilização em diante. O aumento ocorre de 0,5kg MS/1,0kg de elevação na produção de leite. Essa informação é importante para evitarmos que falte trato para os animais.

Vale ressaltar que o estresse térmico em rebanhos leiteiros pode ser um problema sério. A produção de leite pode diminuir 20% ou mais. Além da produção, ocorre diminuição da gordura e proteína no leite, queda da eficiência reprodutiva e aumento na severidade de alguns distúrbios metabólicos. A tabela 2 mostra o efeito do estresse térmico sobre o consumo, o qual cai (10 a 30%) à medida que a temperatura aumenta.

Tabela 2 – Mudanças no consumo de matéria seca (CMS) e nas exigências nutricionais de vacas produzindo 27kg/dia1 (3,7% de gordura), em diferentes temperaturas ambientais. Adaptado do NRC 2001.

Temperatura (oC) Exigências de Manutenção (% em 20oC) CMS exigido (kg/dia)1 CMS esperado (kg/dia)2 Expectativa de produção de leite (kg/dia)3
20 100 18,1 18,1 27,2
30 111 18,9 17,0 23,1
35 120 19,1 16,7 18,1
40 132 20,1 10,2 11,8

2Consumo de matéria seca esperado em condições de elevação da temperatura.
3Produção de leite em função do consumo de matéria seca esperado.

Existem estratégias nutricionais e de manejo que buscam minimizar os efeitos deletérios do estresse térmico. Estratégias essas que serão descritas em artigo à parte. No entanto, com os dados apresentados, fica fácil entender que em nosso país os animais enfrentam grande desafio de estresse térmico, e não é de se estranhar o grande investimento que se tem feito nos últimos anos em instalações e estratégias de conforto.

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Atenção na umidade da dieta total! Valores de umidade acima de 55% e abaixo de 45%, podem declinar o consumo em até 5,0%. Já que falamos sobre a umidade da dieta, é de extrema importância garantir água em qualidade e quantidade para os animais, de modo também a elevar o consumo de MS. Outro questionamento importante seria: Quanto tempo suas vacas ficam sem acesso à comida? Esse tempo não pode ser superior a 4h diárias, além disso, ele inclui: os deslocamentos para a cama, para a sala de espera, ordenha, períodos de limpeza das instalações, período ocioso, entre outros. Procure garantir que todas as vacas tenham acesso ao mesmo tempo à comida nos momentos do seu fornecimento. Vacas são animais de rebanho e expressam seu comportamento em conjunto.

Finalizando, as vacas só apresentarão máximo consumo quando tiverem tempo para se alimentarem tranquilas e dieta total em 100% do tempo disponível para os animais. Vacas confinadas se alimentam diariamente 9 a 13 vezes (média de 11 vezes), em média 29 minutos por acesso. Quando ocorre limitação dessa oferta, seja ela por falta de alimento ou por falha no manejo, as vacas diminuem a produção em cerca de 7%. Além disso, monitore as sobras, pois as vacas podem ficar sem alimento no cocho em no máximo por 30 minutos.

Agroceres Multimix. Muito Mais que Nutrição.

Carlos Giovani Pancoti

Carlos Giovani Pancoti

Carlos Giovani Pancoti é nutricionista de bovinos de leite da Agroceres Multimix

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