LactAção: Uma perspectiva sobre o cromo na nutrição de vacas leiteiras

O cromo foi pela primeira vez apresentado como mineral essencial em 1959 por Schwarz e Mertz. Posteriormente, pesquisadores avaliaram sua influência sobre o metabolismo energético, descobrindo seu papel potencializador da insulina.

O cromo desempenha papel estratégico no metabolismo de carboidratos, estabilizando os receptores de insulina, que permitem a entrada de glicose para a célula. A glicose é fundamental para a síntese de lactose do leite, além de fonte de energia para o funcionamento fisiológico do corpo, do sistema imune e da função reprodutiva. Se os receptores de insulina não funcionam corretamente, essa condição fica conhecida como “resistência à insulina”, semelhante ao diabetes tipo II em humanos. Traduzindo, resulta em maior dificuldade de entrada de glicose pela célula.

A resistência à insulina ocorre como uma forma de “poupar” glicose para a síntese de lactose. Tal acontecimento é muito importante em vacas no período de transição e início de lactação, pois associado ao fato, ocorre elevação da mobilização lipídica oriunda do tecido adiposo (Sano et al., 1993). Na figura 1 podemos observar o efeito deletério sobre o consumo de matéria seca (CMS) pela elevação dos ácidos graxos mobilizados (NEFA).

Figura 1 – Efeito da concentração de ácidos graxos não esterificados (NEFA, mEq/L) sobre o consumo de matéria seca (CMS, kg/dia) em vacas leiteiras no período de transição. Adaptado de Overton 2000.

A suplementação de cromo nessa fase, aumentaria a sensibilidade à insulina pelas células, resultando em diminuição da mobilização lipídica no tecido adiposo, diminuindo assim o efeito do balanço energético negativo, tão prejudicial à produção e reprodução.

Na figura 2, os pesquisadores demonstraram – em novilhas em crescimento – que os animais suplementados com cromo em suas dietas, apresentaram menor “pico de insulina”, demonstrando que os tecidos foram mais sensitivos à insulina quando houve infusão de glicose (infusão simulando a alimentação).

Figura 2 – Efeito da suplementação de cromo na concentração de insulina plasmática de novilhas em crescimento. Adaptado de Spears et al. 2010.

Hutjens (2016), compilou dados de 27 experimentos, os quais avaliaram o efeito da suplementação de cromo sobre a produção leiteira (nessa compilação, não houve efeito significativo sobre a dose utilizada). A adaptação desses dados, são demonstrados na tabela 1.

Tabela 1 – Resposta em produção de leite (kg/dia) em vacas suplementadas com cromo:

Efeito

Resposta em leite (Kg/dia)

Número de Experimentos

↓ Leite

-0,2 a -1,7

3

↑ Leite

0,0 a 1,3

9

1,3 a 2,5

10

> 2,5

5

Observamos que grande parte dos resultados (mais de 80% dos experimentos compilados), apresentou elevação na produção de leite. Houve elevação média de 1,4kg/animal/dia e 1,8kg/animal/dia, sobre o CMS e a produção de leite, respectivamente. Os efeitos são mais relevantes nos primeiros 100 dias de lactação, sendo o efeito desta suplementação pouco significativo a partir desse período.

Como relatado anteriormente, as concentrações de NEFA no sangue e o CMS, são inversamente correlacionados. Maior concentração de NEFA também está associada à menor taxa de concepção e de prenhês, pois as vacas estão perdendo mais peso (escore corporal). Também há o efeito direto da menor sensibilidade à insulina sobre os ovários, havendo menor captação de glicose, ocasionando menor taxa de ovulação.

O estímulo da atividade do sistema imune leva a efeito positivo sobre a reprodução, visto que há grande desafio bacteriano no útero. Alguns dados de pesquisa, mostraram elevação de 25%, sobre a contagem de neutrófilos no sangue de vacas suplementadas com cromo (em relação ao grupo controle) no sétimo dia pós-parto. Consequentemente, potencializando a diminuição dos dias em aberto por diminuição dos casos de endometrites. Pesquisas em gado de corte relatam diminuição em 64% no cortisol (cortisol apresenta capacidade imunossupressora) de bovinos recém chegados para o confinamento, quando suplementados com cromo anteriormente.

Ainda em relação aos efeitos no sistema imune, vacas suplementadas com 0,5mgCr/kg MS tiveram maiores respostas dos anticorpos contra os antígenos (Burton et al., 1993). Porém, outros experimentos não demonstraram efeito positivo sobre a imunidade. Tal fato se deve, provavelmente, aos diferentes tipos de antígenos e sua complexa interação antígeno-anticorpo. Essa é uma abordagem que ainda necessita de maiores esclarecimentos pela pesquisa.

Em termos de dosagem, o FDA americano (Food and Drug Administration – órgão que controla e prescreve produtos) regulamenta o Cr-propionato como a fonte para bovinos, com doses de 0,5mg/kg MS. Fontes de cromo inorgânicas não são permitidas e/ou recomendadas.

Finalizando, técnicos e produtores devem considerar a utilização do cromo em seus programas nutricionais, avaliando o custo benefício da utilização de suplemento com cromo em sua composição e considerando o potencial de melhoria nos parâmetros de consumo, produção de leite, imunidade e reprodução.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Carlos Giovani Pancoti

Carlos Giovani Pancoti

Carlos Giovani Pancoti é nutricionista de bovinos de leite da Agroceres Multimix

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