Mortalidade de porcas relacionadas ao Clostridium novyi: Como evitar esse prejuízo

A mortalidade de matrizes causa forte impacto financeiro no sistema de produção, gerando aumento dos dias não produtivos (DNP), incremento de custo com a reposição da fêmea que morreu e alteração no fluxo de produção. No sistema de produção de suínos, considera-se morte de porcas: todas as porcas que morrem e as que são sacrificadas (sem aproveitamento da carcaça). Na produção de suínos, é aceitável até 5% de morte de porcas (anual). A mortalidade de porcas tem causas multifatoriais, como: infecciosas, traumáticas, fatores nutricionais (micotoxinas), úlceras e fatores ligados à instalação e o ambiente, porém a causa real da mortalidade muitas vezes é negligenciada nas granjas.

No dia 15 de fevereiro de 2018 o National Hog Farm divulgou uma noticia sobre o aumento da mortalidade de porcas nos últimos anos em Illinois (EUA), reunindo dados de mais de 240 produtores de suínos e, aproximadamente, 140 mil matrizes suínas (Carthage System – Professional Swine Management, LLC). O banco de dados do sistema indica um aumento da mortalidade de 6,7% (2006-12) para 9,3% (2013-17), sendo que em 2017, fechou em 9,5%, como segue no Gráfico 1 abaixo:

Gráfico 1. Mortalidade de fêmeas do Carthage System 1996 -2017.

Neste compilado de dados, o autor afirma que no período de 2013-17, sempre o terceiro trimestre (julho-setembro) obteve-se a maior mortalidade, 9,2%; já o quarto trimestre do ano (outubro a dezembro) é o de menor índice de mortalidade, 7,8% (Gráfico 2). O estresse por calor durante os meses de verão (verão nos EUA se inicia em junho) seria o principal contribuinte para a mortalidade durante o terceiro trimestre.

Gráfico 2. Mortalidade de fêmeas e temperaturas do Carthage System 2013 – 2017.

Os motivos mais comuns relatados para a causa de morte são: “desconhecido”, definhamento, claudicação e prolapso (retal, vaginal e/ou uterino). No Carthage System, existem 27 causas possíveis para a mortalidade de porcas, em outro sistema de produção de suínos nos Estados Unidos, são mais de 80 causas possíveis. A variabilidade de causas entre os sistemas dificulta uma análise global. Se as opções de causas fossem as mesmas nos sistemas, poderia ajudar a determinar a maior causa e auxiliar nas medidas de controle. Dentre os vários diagnósticos de causa de mortalidade em porcas, um que vêm aumentando nos últimos anos é a morte súbita de porcas por Clostridium novyi. O agente etiológico primário é o Clostridium novyi tipo B, bactérias gram-positivas, formam esporos e são anaeróbias, sendo encontradas nas fezes de suínos e no solo (Barcellos e Oliveira, 2012).  A morte por C. novyi causa rápida decomposição na carcaça e, por esse motivo, muitas vezes impossibilita o diagnóstico correto, visto que também é um agente presente nas decomposições de carcaça de animais mortos. Para o diagnóstico correto, é importante colher amostras o mais rápido possível, em até 12h após a morte (García et al. 2009). Apenas o isolamento de C. novyi no fígado de uma matriz morta por mais de 24 horas não é suficiente para afirmar que a causa da morte foi hepatite necrótica infecciosa ou hepatopatia clostridial (Duran, 1997; Batty, 1967). A dificuldade em determinar se achados de necropsia são degenerações pós-morte, principalmente no verão, pode causar subnotificação da causa de mortalidade da porca por C. novyi (Duran, 1997).

Segundo Andrade et al. (2017), em uma granja comercial de 4.000 matrizes, houve aumento da mortalidade de matrizes por morte súbita na primeira semana após o parto, elevando o índice de mortalidade de 6,7% para 10,2% em um mês. Na necropsia – na granja – os animais acometidos apresentavam putrefação avançada, poucas horas após a morte, fígado de cor enegrecida, com alterações bolhosas na superfície e odor pútrido (Foto 1). O baço apresentava hiperplasia de polpa branca e havia o espessamento da parede da bexiga. Lesões bem próximas às descritas por Barcellos e Oliveira (2012), García (2009) e Akiyama (2017). García (2009) também encontrou na necropsia edema subcutâneo e presença de líquido sanguinolento nas cavidades corporais. Akiyama (2017) encontrou lesões macroscópicas também no coração e cérebro. Foi encontrada encefalomalacia no cérebro. O coração estava bem escuro e no pericárdio foram encontradas áreas acentuadas de sangue. No ensaio de PCR foi identificado C. novyi tipo B no fígado e cérebro. Esses achados de Akiyama (2017) mostram que C. novyi tipo B pode causar uma gangrena gasosa sistêmica acompanhada por encefalomalacia.

Embora grande cuidado deva ser tomado na interpretação de achados bacteriológicos, a identificação de organismos clostridiais, associados à morte súbita, rápida decomposição pós-morte de órgãos e a presença de bolhas de gás no o fígado (como na Foto 01), sugere morte causada por Clostridium. O achado patognomônico da morte súbita de porcas, devido a C. novyi, é um fígado aumentado, friável e cheio de gás, com lóbulos de fígado cheios de bolsões de gás que produzem uma aparência favo de mel (semelhante a uma barra de chocolate cheia de bolhas de ar) (Duran, 1997; Taylor, 1999).

Foto 1. Fígado com alterações patológicas.

A maioria dos casos têm ocorrido no terço final da gestação e início da lactação. Com menor frequência, pode ocorrer nas outras fases da gestação e lactação.  Dentre os estágios da gestação e lactação, as fases de maior incidência da morte súbita coincidem com as fases de maior estresse do animal, principalmente em fases em que o metabolismo do animal está alto, levando a uma sobrecarga do fígado. Mudanças no sistema imunológico da porca durante a gestação também pode desempenhar um papel importante na ocorrência de hepatopatia por C. novyi (García, 2009).

Como tratamento curativo, é sugerido o uso de antibióticos gram positivos na ração, como por exemplo amoxicilina. Na prevenção da doença, pode ser usado alguns promotores de crescimento como enramicina ou bacitracina de zinco. Existe também relatos de controle com o uso de produtos à base de óleo essencial, porém necessita-se de mais estudos. Outra opção que pode ser implementada é o uso de vacinas contendo alfa ou beta toxóide do C. novyi tipo B. Gomes (2013) relata que duas doses de vacinas imunizam bem os animais, conferindo um ano de proteção. Em situações práticas, observa-se que: quando os animais estão em uma melhor condição de bem-estar e ambiência a mortalidade de porcas diminui.

Muitas vezes, principalmente quando está dentro da faixa esperada, a investigação da causa de morte real é negligenciada pela granja, ou por falta de técnico capacitado ou por descaso da equipe da granja. Quando o técnico de campo tem as informações corretas, que representam a realidade da granja, a tomada de decisão é mais rápida e segura. A mortalidade de matrizes causa impacto financeiro e no fluxo de produção de suínos, por isso, suas causas devem ser investigadas para que possa ser implementada medidas de controle e prevenção.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Fernando Morais de Carvalho

Fernando Morais de Carvalho

Fernando Morais de Carvalho Jr. é Consultor Técnico Comercial de Suínos na Agroceres Multimix

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