O que ainda podemos aprender sobre frequência de ordenha?

Em sistemas convencionais, ordenham-se as vacas duas vezes diariamente. Sabemos que a frequência de ordenha afeta a produção de leite, e no caso de aumentar o número de ordenhas, geralmente falamos em fugir do convencional (duas vezes) para a frequência de três vezes/dia, buscando elevar a produção de leite. Essa elevação é parcialmente explicada pela remoção mais frequente da proteína de feedback negativo (FIL, fator de inibição da lactação) (Wilde et al., 1995), bem como de outras proteínas como a serotonina, que são responsáveis por apresentarem efeito negativo na produção de leite (Collier et al., 2012). Além disso, maior frequência poderia ter impacto positivo na produção diária de leite através de um aumento na atividade das células secretoras (Capuco et al., 2003).


Esse aumento na produção é interessante?

Essa não é uma pergunta fácil de ser respondida, devido, principalmente, aos diferentes sistemas de manejo de produção, genética do rebanho, estádio de lactação, fatores nutricionais e de saúde. Neste artigo tentaremos colaborar nessa tomada de decisão.

Em estudo realizado por Campos et al. (1994), em que avaliaram 4.293 lactações de 14 diferentes rebanhos americanos, foi registrado um aumento de 17% na produção com o incremento da terceira ordenha. Nesta mesma década, Mark Varner da Universidade de Maryland, publicou uma revisão em que estimou uma resposta média de 12% de aumento, adotando a terceira ordenha. Stockdale (2006) observou com a terceira ordenha, elevação média de 15% na produção de leite. Essas respostas, como mostram os trabalhos, variam de fazenda para fazenda.

Nas fazendas em que a estratégia da terceira ordenha não alcança os seus objetivos, provavelmente se deve ao fato de que o tempo em que as vacas permanecem longe da cama e do cocho de alimentação, além do maior período de espera, são demasiadamente elevados, levando ao desconforto, alterações no padrão de consumo e, consequentemente, resultados insatisfatórios.

Com o advento da terceira ordenha, as novilhas geralmente expressam maiores respostas (percentual de produção) do que as vacas. Porém, Hart et al. (2014) descobriram que a produção de leite corrigida para energia aumentou em 2,5kg/dia para novilhas, e 3,2kg/dia para vacas. O consumo de matéria seca não alterou para as vacas, no entanto, a eficiência aumentou em quase 5%. Já as novilhas tiveram elevação de consumo de 1,0kg, sem alteração na eficiência. Logo: Vacas e Novilhas utilizam estratégias diferentes para alcançar aumentos na produção.

Aparentemente, vacas ordenhadas três vezes apresentam refeições mais longas e maiores, sem alterar o consumo total, logo, gastam mais tempo se alimentando. Geralmente ficam 20 minutos a mais nessa atividade. Com o que entendemos de dinâmica ruminal, a terceira ordenha promove uma fermentação mais consistente e eficiente. Já nas novilhas, a terceira ordenha ajustou o comportamento alimentar, elevando o consumo destas. Logo, mais um motivo do produtor separar novilhas de vacas.

Para estimar a potencial rentabilidade da mudança para 3 ordenhas, devemos determinar as despesas adicionais de alimentação, material de ordenha e, principalmente, requisitos adicionais de mão de obra. Este último é o fator que mais impacta a tomada de decisão, tanto que sistemas automáticos de ordenha podem se tornar mais comuns devido ao custo elevado de mão de obra. As despesas e situações de cada rebanho são diferentes, cada produtor que ordenha 3 vezes, ou que esteja pensando em mudar, deve determinar seus próprios números de lucratividade. Sua rentabilidade real ou potencial pode ser uma surpresa para você. E não queremos surpresas na atividade.

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Devido ao fato da terceira ordenha não ser realidade para muitos produtores, nos últimos anos, pesquisadores vêm trabalhando com outros protocolos de frequência de ordenha para avaliar a produção de leite. Alguns trabalhos demonstraram que, ao duplicar o número de ordenhas em animais recém paridos, apenas durante as primeiras 3 semanas de lactação, pode afetar o potencial de produção por toda a lactação. Tal como acontece com a maioria das pesquisas, há uma variação na resposta.

Creio que a condição corporal na parição e o manejo de alimentação durante as primeiras semanas de lactação, são fatores principais para determinar o quão as vacas responderão à duplicação da frequência de ordenha. Além disso, impor o aumento da frequência de ordenha sem planejamento, pode ocasionar atraso no retorno ao balanço energético positivo nos animais.

Henshaw et al. (2000) observaram aumento médio de 8,0% na lactação, quando ordenharam as vacas 6 vezes nos primeiros 42 dias de lactação, retornando posteriormente para 3 ordenhas, se comparado a 3 ordenhas durante todo o período. Não houve alteração nos sólidos do leite. Resultados mais recentes indicam que essa frequência somente precisa ser aumentada nos primeiros 21 dias, retornando à rotina posteriormente. O ganho em produção realizando este manejo, apresentou elevação média de 2,7kg/vaca/dia. A evidência é que um aumento na prolactina nas primeiras semanas pós-parto pode elevar o número de células secretoras da glândula mamária, refletindo benefícios produtivos durante toda a lactação.


Considerações finais

Aumentar a frequência de remoção de leite eleva a produção de leite. De fato, essa é uma abordagem gerencial comum para maximizar a produção por vaca e otimizar totalmente o investimento de capital em máquinas e instalações. Uma desvantagem óbvia é o aumento dos custos variáveis, principalmente o trabalho. Outra forma de otimizar os recursos, sem demandar elevada mão de obra, buscando – embora mais modestos – aumentos de produção, é a duplicação da ordenha nos primeiros 21 dias de pós-parto, que se mostra uma boa opção.

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Referências Bibliográficas:

Campos, M.S.; Wilcox, C.J.; Head, H.H.; Webb, D.W.; Hayden, J. Effects on production of milking three times daily on first lactation Holsteins and Jerseys in Florida. Journal of Dairy Science, 77: 770, 1994.

Capuco, A.V.; Ellis, S.E.; Hale, S.A.; Long, E.; Erdman, R.A.; Zhao, X.; Paape, M.J. Lactation persistency: insights from mammary cell  proliferation studies. Journal Animal Science, 81, 18–31, 2003.

Collier, R.J.; Hemandez, L.L.; Horseman, N.D. Serotonin as a homeostatic regulator of lactation. Domestic Animal Endocrinol. 43, 161–170. 2012.

Hart, K.D.; McBride,  B.W.; Duffield, T.F.; DeVries, T.J. Effect of frequency of feed delivery on the behavior and productivity of lactating dairy cows. Journal of Dairy Science, 97 (3): 1713-1724. 2014.

Henshaw A.H.; Varner, M.; Erdman, R.A. The effects of six times a day milking in early lactation on milk yield, milk composition, body condition and reproduction. Journal of Dairy Science, 83(Suppl. 1):242. 2000.

Stockdale, C.R. Influence of milking frequency on the productivity of dairy cows. Animal Production Science. 2006.

Wilde, C.J.; Addey, C.V.P.; Boddy, L.M.; Peaker, M.  Autocrine regulation of milk secretion by a protein in milk. Biochem. J. 305, 51–58. 1995.

Carlos Giovani Pancoti

Carlos Giovani Pancoti

Carlos Giovani Pancoti é nutricionista de bovinos de leite da Agroceres Multimix

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