O que aprendemos com as crises na suinocultura?

Crises na suinocultura? O que podemos aprender

Não é novidade que a suinocultura apresentou grande variação no valor recebido pelo kg do suíno ao longo dos anos, com exceção de 2017 (Gráfico 1). O início de 2018 já retoma o mesmo comportamento dos anos passados, com o preço do suíno baixando logo no primeiro trimestre, assim gerando crises na suinocultura.

GRÁFICO 1: Preço médio¹ do suíno no Brasil ao longo dos últimos anos.

Crises na suinocultura - Nutrição Animal Agroceres Multimix

Adaptado Agroceres PIC 2017. ¹ Média dos preços praticados durante os anos em Belo Horizonte, São Paulo, CEPEA SC, CEPEA PR, CEPEA RS, Acrismat e Goiás.

Além desse menor preço do quilo de suíno, a redução da oferta de milho e a grande especulação do mercado de milho e soja levam ao aumento do custo de produção dos suínos.

Esse cenário faz com que os produtores mais preparados se estabilizem, e até mesmo cresçam, visto que alguns suinocultores abandonaram a atividade nesse momento, deixando um espaço no mercado. O cenário de crises na suinocultura leva a um ciclo vicioso, pois com o aumento dos custos de produção, os produtores tendem a aumentar temporariamente a oferta de animais no mercado, levando a uma redução ainda maior do valor recebido pelo animal.

Com isso, abordaremos três atitudes muito comuns em momentos de crise, que podem levar a prejuízos ainda maiores para os produtores:

  • O cancelamento da reposição de marrãs, mais comum em rebanhos pequenos;
  • A redução do uso de antibiótico e/ou mudança do protocolo de vacinas e medicamentos;
  • Mudança na decisão de compra para produtos de nutrição mais baratos.

Fica bem claro que uma decisão errada sobre os três pilares: genética, sanidade e nutrição, pode provocar uma perda muito grande na produção. Dessa forma, discutiremos esses exemplos de modo pontual.

Riscos associados ao cancelamento das reposições de fêmeas

Granjas que compram suas matrizes (F1) e têm uma programação mensal de recebimento de marrãs – costumeiramente – suspendem a programação como a forma mais rápida de cortar os gastos. No entanto, a produtividade das fêmeas é diretamente ligada à distribuição no plantel (ANTUNES, R. C.; 2007 – Figura 1). Com o corte na reposição, as fêmeas com histórico ruim – de idade avançada e reincidentes em problemas reprodutivos – permanecem no plantel, devido a maior retenção de fêmeas, e são o primeiro motivo de baixa produtividade da granja, seja em: número de nascidos, taxa de parição e, consequentemente, falhas nas metas de coberturas. Poderíamos listar muitos outros índices, porém, deixaremos esses três exemplos como os mais críticos.

Crises na suinocultura - Nutrição Animal Agroceres Multimix

Figura 1. Distribuição de ordem de parto ideal.

Como observamos nas granjas, há uma busca incessante para se alcançar o aumento do número de desmamados, trabalhar com uma taxa de parição acima de 90% e, consequentemente, vender um bom número de cevados no final do mês. No entanto, o suinocultor se esquece que para atingir tais números, ou seja, para extrair o máximo de produtividade de uma granja, ele precisa dar condições para isso. E trabalhar com a reposição regular é uma das estratégias para construir um alicerce mais forte.

Riscos da redução de utilização de antibióticos e vacinas e/ou mudança nos protocolos

Devemos sempre lembrar dos momentos de dificuldade do passado, pois toda granja já deve ter passado por um caso de surto sanitário, seja ele mais brando ou mais complicado e, quando deparado com um agente de difícil diagnóstico e controle, os gastos se tornam enormes. Além dos prejuízos com o aumento da mortalidade, há também a queda de desempenho da granja de maneira geral, refletindo tanto em número quanto em peso dos animais vendidos, e isso destrói qualquer saúde financeira de uma granja.

Riscos associados à utilização de alimentação mais “barata”

Na maioria das vezes, para diminuir custos, o suinocultor busca trabalhar com co-produtos e produtos de baixa inclusão e se esquece que, para isso, precisa ter uma estrutura física, operacional e com mão de obra capacitada. Além disso, dependendo do grau de investimentos, temos que lembrar das análises laboratoriais que garantirão uma fabricação de ração com qualidade.

Um dos grandes gargalos nesse tipo de produção é a certificação de fornecedores, que garantem os padrões mínimo de qualidade nos produtos, pois o suíno não come a “fórmula de ração”, mas sim a ração que é produzida com os ingredientes disponibilizados. Ou seja, se os níveis nutricionais dos produtos utilizados não condizerem como naqueles da fórmula, as consequências são iminentes e desastrosas, resultando em queda de desempenho, desuniformidade de lotes, problemas sanitários, etc.

Todo ajuste de fórmulas a fim de reduzir os custos de ração deve ser realizado pelo nutricionista responsável, de forma racional e que garanta uma melhor relação custo benefício, para tanto, o nutricionista deve levar em consideração o preço de venda dos animais, a qualidade dos produtos utilizados, a disponibilidade dos alimentos utilizados e o resultado de desempenho final, para realizar o melhor ajuste possível. Somente assim, a garantia de redução de custos não afetará de forma catastrófica a situação do empresário, ou melhor, do suinocultor.

Melhores estratégias nos momentos de crise

A melhor estratégia para as crises na suinocultura é estar preparado para ela. Sempre tenha em mente que esse é o cenário desse sistema de produção.

Os maiores influenciadores do custo de produção são o milho e o farelo de soja. Sempre tente manter os custos desses ingredientes o mais fixo possível. Essa alternativa pode ser realizada por diversos meios, como através de contratos, reserva física (silos) e compra via BMF (Bolsa de Mercado Futuro). Tenha sempre em mente que nos momentos de abundância uma reserva financeira deve ser efetuada. Entretanto, se o produtor não estiver preparado para crises, algumas estratégias são fundamentais.

Para o pilar da genética, a redução do plantel é uma saída, porém é imprescindível nunca deixar de repor as fêmeas por mais tentador que seja, pois a produção é um ciclo constante, e negligenciar a reposição é criar problemas mais profundos futuramente. Mesmo reduzindo o plantel, o produtor precisa estar ciente que essa medida proporcionará a redução de animais a longo prazo, o que pode resultar na redução de venda somente no momento que a crise já estiver finalizada.

Sobre a sanidade, trabalhar com monitoramento e prevenção sempre foi e sempre será – em todos os momentos – a melhor estratégia. Engana-se quem usa medicamentos mais baratos ou outras estratégias vacinais mais baratas. O suinocultor que já passou por um surto sanitário na granja sabe bem o tamanho do prejuízo quando acontece, portanto, deve-se manter os protocolos vacinais e medicamentosos com disciplina.

Sobre a nutrição, alinhar as recomendações dos nutricionistas, com estratégias de negociações de matérias primas, é a melhor saída. Investir tempo em busca de melhores negócios com fornecedores de milho, soja, sorgo, farinha de carne, co-produtos, etc. é essencial.

Calculando a variação de preço do milho em uma granja de 1.000 matrizes, a diferença de R$ 0,016 no kg de milho, referente a uma saca de R$38,00 contra uma saca de R$39,00, impacta o custo de produção em aproximadamente R$ 7.000 por mês.

Considerações finais

Todo o sistema de produção intensivo é assim: muito delicado e desafiador. Temos que lembrar que a eficiência em produzir carne com custo competitivo e com qualidade é o que move e garantem os players no mercado. Estar alinhado com as notícias de mercado, ter uma boa gestão do sistema de produção e conhecer seus números, é a base de qualquer negócio lucrativo.

Assim como nas estações do ano, a seca vai e volta, as chuvas vem e vão, e todo ano nos deparamos com momentos bons e ruins, e a questão que fica é a seguinte: Como estamos nos preparando para as próximas crises na suinocultura?

Bibliografia

ANTUNES, R. C. Rev Bras Reprod Anim, Belo Horizonte, v.31, n.1, p.41-46, jan./mar. 2007. Disponível em www.cbra.org.br

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Renato Philomeno

Renato Philomeno

Renato Philomeno é Consultor Técnico Comercial de suínos na Agroceres Multimix

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1 Comentário

  1. João Antonio disse:

    Excelente abordagem do tema!!

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