Por Dentro do Cocho – Casca de soja

A casca de soja nada mais é do que uma fina camada fibrosa que recobre o grão, sendo obtida após o processamento industrial da soja para produção do farelo “high pro” (farelo com alta proteína, tipo exportação). Classificada como coproduto energético (< 20% PB), a casca de soja possuí perfil nutricional que permite substituir os grãos mais utilizados na produção animal, como milho e o sorgo. No entanto, diferente desses, a casca de soja não possuí elevados teores de amido, sendo sua energia oriunda da fibra potencialmente digestível presente em sua estrutura. Baseado nestas características, a casca de soja pode ser classificada como um ingrediente intermediário entre concentrado e volumoso, apresentando-se como um insumo que desempenha papel fisiológico de fibra, porém confere energia a dieta, resultando em uma contribuição nutricional muito semelhante a polpa cítrica e resíduo de cervejaria à dieta.

Durante o processo de extração de óleo de soja as cascas são extraídas, podendo ser comercializada na forma de cascas ou peletizada – alternativa para diluição do frete (Figura 1). Para cada tonelada de soja, obtêm-se aproximadamente 180 kg de óleo (18%), 710 kg de farelo de soja com 48% de proteína bruta (71%) e em torno de 50 kg de cascas (5%) (BLASI et al., 2000). Quanto menor o teor de proteína bruta do farelo, menor será a quantidade de cascas produzidas, não sendo todas as indústrias de óleo de soja que são fornecedoras de cascas de soja.

Figura 1. Casca de soja peletizada e normal.

A casca de soja possuí elevadas quantidades de fibra em detergente neutro (FDN), cerca de 70% da matéria seca total. Deste total, 95% desse FDN apresenta potencial de ser aproveitado, uma vez que é composto por elevadas quantidades de hemicelulose e celulose e ao baixo conteúdo de lignina (aproximadamente 2,0%). Apesar destas características, a casca de soja não deve ser utilizada como exclusiva fonte de volumoso nas dietas, uma vez que sua efetividade ruminal é inferior as fibras de volumosos. Quando analisada a fração de carboidratos solúveis, rapidamente fermentáveis no rúmen, 62% destes são pectina, componente este que tem alta digestibilidade ruminal como o amido (WAHLBERG, 2009).

 

Tabela 1. Composição nutricional Casca de soja, milho e sorgo.

Casca de soja Milho Sorgo

Matéria Seca (%MS)

90,30 87,91 88,12

Proteína Bruta (%MS)

12,73 9,05

9,67

Extrato Etéreo (%MS) 2,20 4,02

2,94

Amido (%MS)

3,51 72,43

64,51

Fibra Detergente Neutro (%MS)

66,58 13,91

14,70

Nutrientes Digestíveis Totais (%MS)

68,85 85,73

79,86

Carboidratos Solúveis (%MS) 13,20 20,51

 

Como outros coprodutos que são utilizados em substituição aos grãos na produção animal, os níveis de inclusão ou substituição de casca de soja nas dietas dependem de fatores como: tipo de dieta, categoria animal, nível de concentrado e volumoso das dietas.

A casca de soja, por apresentar uma grande fração potencialmente digestível, tem sua quantidade de Nutrientes Digestíveis totais (NDT) dependente do tipo de dieta que os animais estão consumindo. Em dietas com altos teores de volumosos, a quantidade de NDT da casca de soja é mais elevado, visto que, nesse tipo de dieta, os ingredientes permanecem maiores períodos no rúmen, devido a menor taxa de passagem da digesta, possibilitando maior tempo de ação dos microrganismos ruminais nos ingredientes, resultando em maior digestão. Já quando a casca de soja é utilizada em dietas com altos teores de concentrado, a quantidade de NDT obtida é menor, uma vez que, nessas dietas, o tempo de permanência dos ingredientes no rúmen é reduzido – taxa de passagem alta – ficando este menor tempo expostos à digestão, reduzindo assim, a produção de energia.

A casca de soja apresenta um valor de NDT menor que o grão de milho, quando incluso em um nível maior que 20% da matéria seca da dieta, no caso de dietas de alto concentrado (WAHLBERG, 2009). Em suplementos com consumo de aproximadamente 0,5% do Peso Vivo, para animais em crescimento em pastejo ou em dietas de alta forragem, o conteúdo de NDT da casca de soja é equivalente ao do milho, aproximadamente 90% da MS (WAHLBERG, 2009). Desta forma, a substituição do milho ou sorgo, pela casca de soja em suplementos para esses sistemas, se torna atrativa. Principalmente quando os custos de milho e sorgo estiverem elevados, a casca de soja vem como excelente alternativa, para diminuição dos custos sem prejuízos no desempenho dos animais.

No entanto, devido suas características físicas, é preciso ter certo cuidado com a quantidade de inclusão de casca de soja em suplementos, rações e/ou dietas. Além de respeitar as questões nutricionais e financeiras, é preciso se atentar a qualidade da mistura e densidade do produto final. A casca de soja possuí densidade baixa, ou seja, baixo peso por unidade de volume, o que pode dificultar a homogeneidade das dietas e gerar maior volume na mistura, podendo mudar a rotina diária de produções dos vagões e ou distribuição do suplemento. Por ser “leve” o volume necessário para atingir 200 kg de casquinha é maior que o mesmo peso de milho por exemplo.

A viabilidade de utilização nas dietas ou das possíveis substituições parciais ou totais de grãos como milho e sorgo pela casca de soja, além de serem analisadas pelas questões nutricionais e de desempenho, devem considerar também a logística de aquisição do insumo. A disponibilidade de casca de soja é dependente da produção e processamento da soja. Esta por sua vez é regionalizada, tendo suas maiores produções nos estados de Mato Grosso e Paraná – locais que também tem alta produção de milho, e onde o preço desse ingrediente, geralmente é mais baixo.

Nessas regiões dependendo das circunstâncias do mercado, o preço do milho e da casquinha podem ser próximos, não tornando viável a estratégia de utilização da casquinha para diminuir os custos de produção. Em regiões onde a oferta de casca de soja é restrita e estão afastadas das regiões com disponibilidade desse insumo, a utilização de casquinha se torna limitada pelo acréscimo do frete ao seu valor final. Podendo ser mais viável buscar milho e sorgo na região que não haverá valor alto de frete, ou algum coproduto próximo a região que encaixe nesse perfil e contribuirá com a redução dos custos.

Uma alternativa para “driblar” os preços dos fretes e reduzir o impacto desses no preço final da casca soja, é a comercialização na forma peletizada. Os pellets de casquinha possuem massa específica maior que na forma farelada – menor volume por área, assim transporta-se maior quantidade de coproduto em uma viagem, diluindo assim o preço do frete, quando comparado com o transporte na forma farelada.

Além dessa regionalização de produção de soja, menor oferta desse coproduto, gerará preços mais altos, sendo semelhantes aos preços de milho e sorgo, como citado anteriormente, não contribuirá para estratégia de redução de custos. No entanto, se a estratégia de utilizar a casca não for para redução dos custos, e sim para melhorar o ambiente ruminal, melhorar a digestibilidade de fibra ou para contribuir com a diminuição dos riscos de acidose, a inclusão e os níveis de casquinha na dieta serão de acordo com as estratégias nutricionais, objetivos, perfil de dietas e recomendação técnica e não mais baseado no custo propriamente dito do insumo.

Sendo assim, vemos que não existe uma “receita de bolo” para o uso da casca de soja em dietas de bovinos. Conhecer as propriedades do insumo é o primeiro passo para saber a melhor forma de fazer seu uso, para então definir a quantidade de inclusão ou substituição. A decisão de utilização, dependerá de uma série de fatores e circunstâncias do momento, sempre considerando a analise econômica, disponibilidade da região, e/ou estratégia nutricional a ser empregada.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Cassiele Oliveira

Cassiele Oliveira

Cassiele Oliveira é Consultora de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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