Por dentro do cocho – Fornecimento de água para bovinos de corte: boi que não bebe, não come

Fornecimento de água para bovinos de corte:

Quando pensamos em produção de gado de corte, muitas preocupações vêm à nossa mente, sejam elas: de estrutura, pastagens, mão de obra, gestão, nutrição, sanidade entre outras; porém nenhuma delas é tão importante quanto o fornecimento de água, insumo básico para qualquer tipo de produção animal. Não conseguimos produzir absolutamente nada se não tivermos água de qualidade e com boa disponibilidade aos nossos animais.

Fazendo um resumo sobre as funções da água no organismo, podemos destaca-la como elemento necessário para: o controle térmico corporal, crescimento, reprodução, lactação, digestão, nutrição celular, manutenção do equilíbrio mineral, audição, visão, tamponamento de fluídos corpóreos, fermentação ruminal, manter o volume de sangue dentro da normalidade, entre outras diversas funções presentes no metabolismo do animal.

A água é o primeiro fator limitante do desempenho dos animais, uma vez que a produção de leite e carne ocorrerá com eficiência quando houver ingestão de água de maneira adequada. Sinais como: fezes ressecadas, baixa produção de urina e pouca procura por água, são alguns dos sintomas observados em animais com problemas no consumo de água.

O consumo voluntário de água em bovinos é determinado por diversos fatores, entre eles destacamos: teor de umidade das dietas, temperatura e umidade do ar, temperatura da água, tamanho e raça, bem como o teor de sódio nas dietas e na água.

Um bovino de corte adulto com cerca de 450 kg de peso vivo consome em torno de 15% do seu peso corporal ao dia, ou seja, em torno de 67 litros de água por dia. Além disso, cerca de 50% do seu peso total é água, sendo o restante gordura, proteína e matéria mineral.

Post: Fornecimento de Água - Gráfico (Composição Corporal/Peso Corporal)

Estudos mostram que – em média – o ganho médio diário aumenta 17% em garrotes que consumem água de boa qualidade, se relacionado aos animais que consumem água de baixa qualidade. Quanto à qualidade, devemos lembrar que isso se deve a um conjunto de fatores, sendo eles: limpeza de bebedouros, disponibilidade, distância entre as fontes de alimento e bebedouros, tamanho dos bebedouros em relação ao lote de animais, vazão de água e acesso aos bebedouros.

Ao idealizar um projeto de pecuária de corte, seja ele de cria, recria ou engorda, devemos ter em mente a forma como estabeleceremos o fornecimento de água. Basicamente, devemos responder as seguintes perguntas: quantos animais e qual categoria e peso médio alocaremos em cada pasto ou baia do confinamento. Nesse sentido, é importante estabelecer que, em menos de 4 horas, é importante fornecer o volume total de água necessário para o lote. Devemos dimensionar o fornecimento de água corretamente para evitar problemas após o termino do projeto, pois geralmente as correções estruturais são difíceis e caras.

 Para exemplificar, pense em um lote com 100 animais, com peso médio de 450 kg. Sendo assim, 100 cabeças x 67 litros por cabeça/dia = 6700 litros por dia / 4 horas. Ou seja, precisamos de 1.675 litros de vazão/ hora para fornecermos a quantidade total de água por dia para esse lote. Vale lembrar que estes números são apenas um exemplo, cada caso deve ser avaliado de forma particular para não haver distorções.

Outro ponto importante é pensar no estoque de água necessário, para eventuais casos de problemas no fornecimento como, por exemplo, se uma bomba ou encanamento apresentarem defeito. Geralmente, a construção de reservatórios ajuda a minimizar esses problemas, além disso, o cálculo de água necessária em estoque é igual a necessidade diária de água, multiplicada por 3 a 4 dias de consumo (tempo necessário para resolver eventuais problemas).

A localização da aguada também é importante. Alguns estudos mostram que mais de 70% do gado pasteja – em média – até 400 metros de distância da fonte de água e suplementos (sal mineral, ração, proteinados). Às vezes, temos pastos grandes e com boa disponibilidade de capim, mas esquecemos as fontes de água, sendo que a construção de bebedouros artificiais pode ajudar a resolver tais problemas.

Embora a relação sobre o espaçamento de cochos seja um assunto bastante abordado pelos pecuaristas – sejam eles para fornecimento de sal mineral, ração ou proteinados -, o tamanho dos bebedouros é um detalhe frequentemente esquecido; nesse sentido, cada caso é um caso, pois além do tamanho do bebedouro, precisamos pensar na vazão de água.

Em confinamentos, é importante que tenhamos uma grande vazão de água para saciar os animais rapidamente, e bebedouros pequenos para facilitar sua lavagem. No caso das recrias, precisamos fazer com que cerca de 5 a 10% do lote consiga beber água ao mesmo tempo, pois o animal tem o hábito de beber água em grupos, e no caso da cria, é importante lembrar do par: vaca/bezerro. Muitas vezes, os bezerros não alcançam o bebedouro e não conseguem beber água (isso vale para cochos de suplementos também).

Post: Fornecimento de Água - Bebedouro em área de confinamento e recria.

Figura: bebedouro em área de confinamento e recria;

Um ponto de extrema importância é a frequência de lavagem dos bebedouros. Não adianta nada termos toda a estrutura bem montada, se não fornecermos água limpa. Em confinamentos ou semi-confinamentos, em que o volume de ração fornecido é elevado, orientamos uma lavagem – de pelo menos – duas vezes por semana, devido ao fato de que o animal leva ração em sua boca e acaba depositando-a na água, gerando a necessidade do aumento da frequência de lavagem dos bebedouros. Em sistemas de cria e recria a pasto é importante realizar um planejamento de lavagens e realiza-las pelo menos a cada 15 dias, nesse caso, é importante sempre observar as aguadas para verificar se não está faltando água, aproveitando para verificar se a limpeza é necessária.

Post: Fornecimento de Água - Aguada natural em má condição.

Figura: aguada natural em má condição (fonte de contaminação).

Aguadas naturais são bem-vindas quando se encontram em boas condições. Aguadas limpas, com bom acesso (sem atoleiros) e com boa renovação de água podem ser utilizadas, porém muitas delas já vêm sendo substituídas por aguadas artificiais, pelo fator ambiental que vem incidindo sobre as propriedades dia a dia.

Uma frase que gosto de dizer é que “BOI QUE NÃO BEBE NÃO COME”. A ingestão de alimentos é muito ligada à ingestão de água, por isso, quando temos algum problema com água, geralmente os desempenhos ficam muito abaixo do projetado.

Post: Fornecimento de Água - Bebedouro com más condições de acesso.

Figura: bebedouro com más condições de acesso.

Um exemplo de cálculo “simples” para aumento de desempenho com o fornecimento de água em boas condições, considerando 100 gramas/dia a mais em ganho de peso, é o seguinte:

# 500 bezerros em recria x 100 gramas/dia x 365 dias = 18.250 kg de peso vivo,  R$ 5,00 (quilo do bezerro ou R$ 150,00 a @) = R$ 91.250 a mais com um bom fornecimento de água de qualidade.

Muitas vezes, deixamos de ganhar por subestimar a importância da água, por isso precisamos somente direciona-la e maneja-la da maneira correta para fornecer em quantidade e qualidade aos nossos rebanhos.

Lembre-se:

Devemos fornecer aos nossos animais a mesma água que gostaríamos de beber.

Agroceres Multimix. Nutrição Animal.

Fabio Miquilin

Fabio Miquilin

Fábio Miquilin é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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3 Comentários

  1. Felipe Maciel disse:

    Bom dia Fábio, ótimo texto!

    Gostaria de aprofundar mais sobre localização de aguada. Por acaso você teria as referências das quais tirou o dado que mais de 70% do gado pasteja a menos de 400m da fonte?

    Att

    • Fabio Miquilin Fabio Miquilin disse:

      Olá, Felipe! Obrigado pela pergunta.
      Foram várias fontes pesquisadas e, na média, encontrei esse número que citei no texto, dentre as referências estão:Paranhos da Costa (2000);
      Gillen et. al (1984); Irving et. al (1995) e a University of Wyoming.
      Lembrando que, temos que ter uma base de partida, porém cada fazenda tem suas características próprias, como: relevo, tamanho de pastos, categorias, e tudo isso pode influenciar no consumo de água, pasto e suplementos.
      Espero ter lhe ajudado.

  2. José Rodolfo Reis de Carvalho disse:

    Ótimo texto Fábio.

    Como você mesmo disse, talvez o ponto mais importante no planejamento e que, muitas das vezes os produtores ignoram.. Parece ser uma coisa tão boba, mas de extrema importância..

    Pensar que grande parte do desempenho é dependente do CMS e que este consumo é ligado diretamente ao consumo de água..

    Interessante a informação de que em um animal de 450 kg, 50% do seu peso é água.

    Se olharmos pelo lado do produto final, “a carne”…. 1 kg de músculo apresenta cerca de 750 ml de água. Para cada acréscimo de 1g de tecido muscular se leva 3 a 4g de água.

    Parabéns pelo texto.

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