Por Dentro do Cocho: Grãos de milho de destilaria – DDG, DDGs, WDG e WDGs

Grãos de milho de destilaria – DDG, DDGs, WDG e WDGs

Nos últimos anos, alavancado principalmente pelos preços das culturas de soja, milho e algodão, tem-se notado um aumento na utilização de outros ingredientes e subprodutos como forma de redução de custos, sem comprometimento do resultado final. Dentre várias alternativas, os resíduos de grãos provenientes da produção de etanol de milho surgem como candidatos à protagonista para essa categoria supracitada. Popularmente, estamos falando do “DDG” (Dried Distillers Grains, sigla em inglês cujo significado é “Grãos Secos de Destilaria”).

Apesar de ser um insumo relativamente novo no mercado brasileiro, os Distillers Grains – Grãos de Destilaria – estão presentes nos confinamentos norte-americanos há mais de 25 anos, como fonte energética em substituição parcial do milho, e sua utilização foi crescendo conforme aumento da oferta, em decorrência da elevação da produção de etanol de cereais nos Estados Unidos. No Brasil, em meados de 2010, os Distillers Grains passaram a ser produzidos no Estado de Mato Grosso, em usinas de etanol que diversificaram suas operações além da cana de açúcar, processando grãos para a mesma finalidade. Entre 2013 e 2014, esse insumo começou a fazer parte de alguns confinamentos mato-grossenses em substituição ao farelo de soja – principal fonte proteica administrada nas dietas de bovinos – e não decepcionou. Atualmente, não somente o Mato Grosso, como também os Estados de Mato Grosso do Sul, Goiás e até mesmo Minas Gerais têm tirado proveito desses coprodutos.

Comumente nos deparamos com diversas denominações para se referir ao tradicional “DDG”, como por exemplo: DDGs, WDG e WDGs, entre outros. Porém, o processo de produção de etanol pode gerar diferentes subprodutos decorrentes da destilação, apresentando composições nutricionais distintas, como podemos visualizar no esquema abaixo:

DDG - Nutrição Animal - Agroceres Multimix

Descrevendo as etapas do processo tradicional de produção de etanol de milho – conforme ilustrado pelo fluxograma acima -, o grão é moído e passa por cozimento com atuação de enzimas para quebra do amido em açúcares simples. Em seguida, ocorre o processo de fermentação através de leveduras, para posteriormente acontecer a destilação do etanol. Nesse momento, em decorrência da etapa de peneiramento, há a separação da parte sólida, demonstrada no esquema como “WDG” (“Wet Distillers Grains”, sigla em inglês que significa “Grãos Úmidos de Destilaria”). A fração líquida, por sua vez, é denominada “solúveis” (representa a letra “s” nas abreviações, por exemplo: “WDGs” e “DDGs”) e é composta por óleo, proteína e amido hidrolisado em açúcares.  

Os “solúveis”, entretanto, passam pelo processo de centrifugação, com o objetivo de extração de parte do óleo constituinte. Feito isso, caso os “solúveis” sejam adicionados de volta à porção sólida, damos origem ao “WDGs” (“Wet Distillers Grains with Solubles”, sigla em inglês que significa “Grãos Úmidos de Destilaria com Solúveis”). O produto da secagem total do “WDGs” é o “DDGs” (“Dried Distillers Grains with Solubles”, cujo significado é “Grãos Secos de Destilaria com Solúveis”). A secagem da porção sólida (WDG) sem a adição dos “solúveis” produz o tradicional DDG.

DDG - Nutrição Animal - Agroceres Multimix

Foto do DDG de milho. Fonte: Lauro Martins.

Como é típico de subprodutos, a composição de nutrientes e valor alimentício podem variar amplamente entre diferentes lotes de milho dentro de uma mesma usina de etanol e, também, entre diferentes usinas (Owens et al., 2015). O DDG de milho – obtido através do processamento convencional – apresenta, em média, teor de matéria seca em torno de 89%. Além disso, os teores de proteína bruta (PB) variam entre 26 a 30%; fibra em detergente neutro (FDN) cerca de 34%; extrato etéreo (EE) entre 8 a 12%; e nutrientes digestíveis totais (NDT) 81%, aproximadamente. Devido ao acréscimo dos “solúveis”, o DDGs de milho pode chegar até 32% de PB em sua composição.

Nos subprodutos úmidos – WDG e WDGs – podemos encontrar valores nutricionais médios de 26 e 32% de PB, respectivamente para WDG e WDGs. Opheim et al. (2016) observaram melhor aproveitamento de nutrientes para os materiais úmidos, quando comparados aos secos, principalmente em relação a PB e FDN. Em relação ao desempenho dos animais, a qualidade da fibra auxilia na melhora do ambiente ruminal e estimula o consumo de matéria seca, devido a redução da queda do pH ruminal através da menor produção de ácido lático. O efeito da secagem para obtenção de DDG e DDGs, compromete em parte a digestibilidade dos nutrientes citados.

O armazenamento do produto úmido é sem dúvida o principal ponto a ser analisado para evitar perdas nutricionais ocasionadas pelo aparecimento de fungos e micotoxinas. Diante disso, a técnica de ensilagem é a solução prática para contornar essa adversidade, uma vez que, esses coprodutos dispensam compactações, exigindo apenas a garantia de uma vedação bem feita através de lona de boa qualidade. Dentre as opções, o silo tipo superfície é a opção mais econômica para tal finalidade. Silo tipo trincheira requer piso concretado, já o silo bolsa, apresenta boa funcionalidade, apesar de seu custo elevado.

Outro ponto a ser mencionado é no que diz respeito à inclusão dos subprodutos de etanol de milho nas dietas de bovinos. Durante o processamento convencional, utiliza-se ácido sulfúrico para controle de pH durante a etapa de fermentação. Isso faz com que os produtos finais apresentem alto teor de enxofre (em média, valores próximos à 0,7% da MS). Ainda não é conhecida a faixa ótima de utilização de Distillers Grains em território brasileiro, no entanto, sua administração nas dietas de confinamento de bovinos de corte, tem consistido em inclusões próximas à 15% na MS como fonte proteica – substituindo em 100% o farelo de soja –, e como fonte energética entre 30 a 50% da inclusão do milho. No Brasil, em função do número de usinas que produzem etanol a partir do milho – amplamente menor que nos Estados Unidos –, a disponibilidade dessas matérias-primas faz com que as participações desses produtos sejam como fonte proteica, visando menores inclusões nas dietas, se comparado a utilização como fonte energética, em que a demanda e a atenção aos níveis de enxofre na dieta seriam maiores.

Analisando as questões explanadas neste texto, aliadas a outros fatores determinantes no processo, tais como: logística, preço e oferta destes insumos, os subprodutos de etanol de milho podem significar uma alternativa interessante dentro do sistema de produção, através da redução nos custos da dieta, frente a diferentes cenários de mercado.

Agroceres Multimix | Nutrição Animal

Arquimedes Júnior

Arquimedes Júnior

Arquimedes Júnior é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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25 Comentários

  1. paulo de paula disse:

    ola , o oleo obtido atraves deste processo pode ser posteriormente refinado e usado para consumo humano

    • Arquimedes Júnior Arquimedes Júnior disse:

      Olá, Paulo!

      O óleo obtido através deste processamento é destinado principalmente para a produção de biocombustíveis e, também, alimentação animal. Para se ter um número quantitativo, hoje esse excedente é dividido basicamente em 50:50 entre alimentação animal e biocombustível. A possibilidade de ser trabalhado para consumo humano existe, no entanto, o refinamento gera um rendimento final muito baixo de produto, fazendo com que as outras alternativas (biocombustível e alimentação animal) passem a ser mais interessantes.

      Qualquer dúvida, por favor, nos avise.

  2. FABRICIO disse:

    TEMOS ENCONTRADO MUITOS COM MS. MUITO BAIXA, O QUE VOCÊ ACHA DISSO ? JÁ OS QUE MUITOS PRODUTORES CONFUNDEM AINDA O SECO E O HÚMIDO..
    VEMOS PRODUTOS ONDE A NOTA APARECE COM 89% MS E O PRODUTO ESCORRE LIQUIDO NO CAMINHÃO E NO SILO…

    • Arquimedes Júnior Arquimedes Júnior disse:

      Olá Fabrício,
      A maioria dos grãos de destilaria úmido, irão variar entre 26 à 32% de MS. O aparecimento de problemas tais como o citado acima (MS alta e produto escorrendo líquido), seria interessante a aferição da MS do produto referido e a partir daí, calcular quanto está o custo da tonelada da MS do insumo adquirido. Nessa situação, se não realizar esta correção, muito provavelmente o produtor estará pagando matéria úmida, o qual não haverá utilidade para nós.
      abraços,

  3. Carlos Alberto Hackbardt disse:

    Olá, bom dia. Você tem algum texto ou documento com explicações sobre o possível uso do bagaço da cana de açúcar na formação da matéria volumosa em confinamentos? Se tiver alguma indicação fico muito grato. Obrigado.

    • Arquimedes Júnior Arquimedes Júnior disse:

      Olá Carlos,
      Em relação a essa pergunta, eu achei um artigo de fácil leitura e que explica vários pontos sobre este insumo. estou te enviado via E-mail.
      fico a disposição.
      abraços,

  4. Viviane Borba Ferrari disse:

    Ótimo artigo. Além de ser uma fonte de energia, o grão de destilaria tambem é utilizado como fonte de proteína by pass, dando bons resultados, principalmente em animais em crescimento, em substituição completa pelo milho na dieta…

  5. Carlos Machado disse:

    Arquimedes, bom dia ! Texto muito bem explicado e de fácil leitura… Temos que aproveitar essa vantagem dos ruminates em utilizar sub -produtos para produzir carne e leite. Att.

  6. Fabrizio Oristanio disse:

    Ótimo texto. Didático, explicativo e de fácil aplicação na tomada de decisão!! Parabéns Júnior!

  7. Daniel disse:

    Parabéns pelo texto Arquimedes!
    Estes co-produtos são, sem dúvida, opções estratégicas que podem ser contempladas no planejamento alimentar dos sistemas de produção.
    Grande abraço,
    Daniel Sarmento

  8. Laziele Albuquerque disse:

    Parabéns Júnior pelo excelente trabalho!

  9. Pedro Zabotto Junior disse:

    Estarei levando essa informação para os produtores de leite. Excelente artigo!

  10. Dimas disse:

    Meus parabéns Arquimedes ótimo texto. Assunto novo no Brasil, mas que está ganhando bastante espaço nos confinamentos aqui do Mato Grosso, confesso vejo mais a utilização do DDG e DDGs pela facilidade de estocagem.

  11. Esses informações pode auxiliar na tomada de decisão usando se pensa em suplementos e aditivos necessários para se produzir carne de qualidade.

    • Muito obrigado pelo comentário, Antonio! O objetivo do artigo é realmente apresentar mais uma alternativa que pode vir a fazer parte da estratégia como um todo. Qualquer dúvida à respeito, permaneço a disposição!
      Um abraço,
      Arquimedes Junior

  12. Marina disse:

    Matéria muito explicativa e de fácil entendimento. Parabéns Júnior!

  13. Renata Gois disse:

    Parabéns Júnior, excelente texto!!

    Abraço Pedrapretense

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