Por dentro do cocho – Qualidade da mistura: ferramenta aliada aos resultados zootécnicos

Qualidade da Mistura: Ferramenta aliada a resultados zootécnicos

Esta é uma questão tão simples, mas que muitas vezes é negligenciada pelos produtores, podendo acarretar na frustração das expectativas criadas frente ao uso de determinada estratégia. Se você não acredita ou tem dúvidas sobre a qualidade da mistura, fique conosco neste post, iremos elucidar e esclarecer algumas questões.

Pense comigo: a melhor formulação, com os melhores ingredientes, fornecida no melhor horário, na melhor estrutura de cocho, pode não ser o suficiente para alcançar os resultados desejados se a qualidade da mistura deixa a desejar. Segundo Mello, Pupa e Hannas (2003), rações que não possuem a mistura adequada podem causar problemas que interferem nos resultados zootécnicos como: redução dos índices reprodutivos, baixa no sistema imunológico e desuniformidade entre lotes.

Post: Qualidade da Mistura. Exemplo de cocho.

Esse pequeno detalhe resulta no consumo irregular das proporções dos nutrientes disponíveis no cocho, o que resulta na falsa impressão do atendimento nutricional dos animais, acarretando a deficiência no atendimento das exigências e, por consequência, redução do ganho de peso dos animais. Uma mistura adequada permite que a dieta seja fornecida de forma eficiente, a qual favoreça o consumo regular de nutrientes, maximizando o desempenho animal (McCOY et al., 1994). Ou seja, a qualidade da mistura está diretamente relacionada aos aspectos econômicos da atividade.

Se considerarmos que toda a programação elaborada pelo nutricionista na dieta calculada,  pode estar diferente da dieta misturada e esta por sua vez, também pode estar diferente do alimento a qual o animal realmente consome, podemos concluir que há vários pontos de risco. Sendo assim, quanto mais homogênea for a mistura, menores as chances do animal consumir – mais ou menos – qualquer nutriente, seja por um erro de mistura ou  pelo consumo de ingredientes preferidos pelo animal.

Outro detalhe importante é que a qualidade da mistura pode se tornar um problema quando pensamos, por exemplo, no excesso de consumo de alimentos ricos em amido. Isso resultaria em distúrbios metabólicos digestivos, ou ainda, no caso de excesso de consumo de ureia, podendo predispor o animal à intoxicação, ou até mesmo leva-lo a morte.

A mistura dos ingredientes que compõem a ração é composta por alimentos secos e úmidos, por exemplo: concentrado e silagem, sendo que, a mistura desses ingredientes geralmente é feita por vagões misturadores, os quais já dosam, misturam e auxiliam no fornecimento do alimento para os animais. Dentro dessa linha de mistura, existem três tipos de sistema: por tombamento, sistema de rotor e por roscas horizontais, considerando que cada um tem sua capacidade operacional, com seu tempo e qualidade da mistura.

Visando obter a homogeneidade na ração e garantir que cada bocado do animal possua aquilo que foi estabelecido em formulação, alguns pontos são relevantes, sendo eles:

– Os ingredientes que são incluídos em porções menores que 1% da mistura total devem ser agrupados em uma pré-mistura, afim de reduzir erros na homogeneidade;

– Os ingredientes mais densos devem ser colocados por último na mistura – no interior do vagão – evitando a segregação;

– O tempo de mistura deve ser estabelecido a fim de evitar o oferecimento da dieta com apresentação inadequada no cocho, aumentando a possibilidade de seleção de partículas.

Post: Qualidade da Mistura. Caminhão enchendo o cocho

Um método muito utilizado para monitoramento da qualidade da mistura em sistemas de confinamentos e/ou granjas leiteiras é a caixa de peneiras conhecida como Penn State Shaker Box.

Post: Qualidade da Mistura. Caixa de Peneiras (Penn State Shaker Box)

Para um resultado mais prático e in loco, após o fornecimento da dieta e antes do consumo dos animais, é feita a coleta de amostras, em diferentes pontos do cocho e em intervalos equidistantes. A amostra retirada de cada ponto é posteriormente passada pelas peneiras da caixa de Penn State. Após peneirar todas as amostras, deve-se comparar a proporção das partículas retidas em cada peneira. Quando a dieta é homogênea, as proporções das partículas tendem a ser semelhantes entre as amostras. Para uma avaliação mais precisa, pode-se fazer a análise bromatológica de algum nutriente da ração como por exemplo: proteína bruta de todas as amostras retiradas e calcula-se o coeficiente de variação (CV%) entre elas. Boas condições de mistura apresentam CV% em torno de 1% a 5%.

No caso de mistura de ingredientes secos, como: milho, farelo de soja, sorgo e sal comum, ingredientes que darão forma às chamadas misturas múltiplas, geralmente feitas através de misturadores. Os mais utilizados são os verticais, no sistema de uma ou duas roscas internas, ou na horizontal, no sistema helicoidal ou em pás, ambos com um ou dois eixos.

Post: Qualidade da Mistura. Imagem de um misturador de ingredientes secos

Para avaliar a qualidade da mistura desses alimentos concentrados, pode-se utilizar a técnica de marcadores (Microtracers), que são partículas de ferro não tóxicas recobertas por corantes estabilizados que são adicionadas na mistura a ser avaliada. Após o tempo de mistura recomendado, avalia-se  presença da partícula em cada uma das amostras coletadas no misturador, finalizando com o calculo do CV% entre as amostras. Outra forma de avaliação da qualidade da mistura nesses produtos é através da avaliação do CV% de nutrientes minerais de baixa inclusão na formulação, como por exemplo: zinco, cobre ou manganês. Nessa técnica, recomenda-se a utilização nutrientes de baixa inclusão na formulação, para que se possa ter maior confiabilidade nos dados finais das análises. Tomando como exemplo, a análise de um suplemento mineral – linha branca – o qual possui em sua fórmula 60% de NaCl, (cloreto de sódio, sal branco), seria incoerente fazer a análise de Na (sódio) do produto. Em ambas análises é aceito um CV% igual ou menor a 10%, como parâmetro técnico de dispersão do nutrientes avaliados.

Fica claro que há uma correlação positiva entre qualidade da mistura e resultados zootécnicos. Esperamos que você tenha absorvido informação suficiente para começar a ter um olho crítico a cerca da qualidade da mistura do alimento fornecido aos seus animais de produção.

Lembre-se:

O monitoramento da qualidade da misturas é uma ferramenta útil, simples e de baixo custo que vem a somar no seu arsenal para otimização de resultados.

Agroceres Multimix. Nutrição Animal.

Marilize Bittencourt

Marilize Bittencourt

Marilize Bittencourt é Consultora de Serviços Técnicos de bovinos de na Agroceres Multimix.

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3 Comentários

  1. Parabéns . Muito boa matéria.
    Estas matérias da Agroceres sempre vem para nos enriquecer de bos informações e consequentemente trazer melhores resultados ao que buscamos na Pecuaria. .

  2. MOACIR GOMES disse:

    Muito oportuno o seu artigo, MARILIZE. O grande desafio, é justamente democratizar essas preciosas informaçoes aos milhares de pecuarista brasileiros. temos um longuissimo caminho a percorrer, nesse, que é um dos maiores gargalos da baixxíssima produtividade do rebanho bovino, caprino e ovino do Brasil. Que é a informaçao da aplicaçao da melhor tecnologia passar das maos dos tecnicos e chegar 0nde ela é realmente necessaria. Que é na mão do nosso produtor. Só a título de exemplo, os Esdados Unidos, tem a metade do nosso rebanho bovino, com o dobro da nossa produtividade. Acredito, que alem dos artigos tecnicos, por demais interessantes, falta-nos a capacidade de colocar todas essas informaçoes com o seu consequente uso, nas maos dos nossos produtores rurais. COMO PODEREMOS FAZER ISSO?
    Muito obrigado.

  3. Oderman Oliveira Lima disse:

    Muito bom o artigo. Parabéns.

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