Silagem de ração em mistura total: uma alternativa que pode ser utilizada na alimentação de ruminantes

Trabalho desenvolvido pelo Centro de Pesquisa em Forragicultura (CPFOR), coordenado pelo Prof. Dr. Patrick Schmidt da Universidade Federal do Paraná (UFPR), buscou avaliar e trazer resultados quanto a alternativas de conservação de alimentos para ruminantes. Na ocasião, aspectos técnicos foram abordados sobre produção e comercialização de silagem de ração em mistura total, buscado trazer algumas reflexões sobre a adoção dessa tecnologia. A equipe avaliou essa tecnologia em termos de qualidade da dieta e conservação de nutrientes durante armazenamento. Nesse estudo, serão apresentamos dados parciais e algumas reflexões sobre a adoção dessa tecnologia.

De modo geral, a ração em mistura total (TMR) é composta por alimentos ricos em fibras (silagem, feno, capim fresco, resíduos fibrosos, etc.) e concentrados (cereais, coprodutos industriais, suplementos minerais e aditivos). Normalmente, esses alimentos são misturados de forma equilibrada na fazenda e imediatamente fornecidos aos animais como complemento de dietas para uma ingestão uniforme. Por ser a TMR um alimento úmido, o mesmo estraga rapidamente após o seu preparo, por isso também, é preparado várias vezes ao dia.

O uso de TMR demanda pré-requisitos como equipamentos e mão de obra especializada, fatores esses que em muitas propriedades são escassos ou limitados, além disso, pequenos e médios produtores – muitas vezes – possuem baixo poder de barganha no momento da compra de insumos, em função da baixa escala de consumo e até mesmo dificuldades em aplicação de conhecimentos técnicos para a produção de dietas nutricionalmente balanceadas.

Uma alternativa recente para atender às necessidades desses produtores é a Silagem de TMR Imagem 1 e 2), o qual se define como sendo o armazenamento de volumoso misturado com o concentrado nos níveis ideais, formulada de acordo com os níveis de produção do animal (ruminantes). Para isso, estão envolvidos vários processos e técnicas de ensilagem.

Imagem 1 e 2 – Silagem de ração em mistura total – TMR

A TMR ensilada pode ser preservada por longos períodos e, ao final, comercializada, transportada e armazenadas na fazenda. Em um primeiro momento, os custos da dieta pronta parecem um fator limitante, quando comparado com os custos de preparação na fazenda, no entanto as vantagens indiretas podem ser fatores importantes na tomada de decisão, ou seja, o processo de terceirização da produção, como: conveniência, redução mão de obra, implementos e maior facilidade no manejo da alimentação. Além disso, deve-se considerar a inabilidade ou falta de profissionalismo em algumas situações durante o processo de produção e conservação de alimentos volumosos. Falhas durante a produção e confecção acarretam elevadas perdas e, consequentemente, a produção do volumoso na própria fazenda torna-se muito mais cara em relação a comprada por terceiros (quando bem feita).

A ensilagem de TMR não é uma prática recente, no entanto, existem poucos estudos em nosso país, apesar do crescente interesse da indústria e dos produtores rurais. No Brasil, a ensilagem de TMR permite uma alimentação pronta para ruminantes, além de um melhor uso de coprodutos úmidos, uma prática que tem sido bastante estudada em outros países.

A TMR ensilada pode ser formulada especificamente para cada categoria animal (vacas leiteiras, vacas secas, novilhas, bezerros, bovinos de corte, ovelhas, cabras, etc.) e inclui muitos ingredientes na dieta, tais como produtos e coprodutos úmidos ricos em fibras, bem como concentrados, minerais e aditivos. A tecnologia permite a formulação de uma alimentação de excelente qualidade, com menor variabilidade em composição e melhor estabilidade no consumo de nutrientes. Além disso, diminui os custos de colheita e transporte de forragem fresca, e requer menos investimento em infraestrutura, máquinas e mão de obra para a preparação da ração.

Conforme levantamento feito pelos pesquisadores em fazendas, foi possível verificar mais vantagens em relação às desvantagens na adoção dessa técnica:

 Vantagens:

  • Redução da mão de obra;
  • Conveniência;
  • Menor investimento com máquinas e combustível;
  • Qualidade constante da alimentação;
  • Ausência de perdas;
  • Possibilita manter o foco em outras atividades.

 Desvantagens:

  • Falta de concorrência no mercado;
  • Custo do frete e distâncias do local da produção à entrega.

De modo geral, os produtores brasileiros têm duas possibilidades para usar essa técnica:

  1. Produção agrícola: A silagem de TMR na fazenda permite otimizar o uso de coprodutos úmidos (resíduo da cervejaria, bagaço da indústria de suco, resíduos de destilaria, etc.), concentrando as atividades e a mão de obra. Isso permite a associação de produtos com diferentes potenciais de fermentação, corrigindo níveis de umidade e solubilidade de carboidratos e favorecendo o processo de fermentação, além do ganho nutricional proporcionado pela TMR. A TMR pode ser feita em silos do tipo trincheira, com camadas sobrepostas de ingredientes diferentes, da forma mais homogênea possível. No entanto, ainda são necessários mais estudos para construir recomendações técnicas para aplicar essa tecnologia em fazendas.
  2. Produção industrial da TMR: A TMR já é produzida em escala comercial no Brasil e o mercado está crescendo acentuadamente. São necessários investimentos em grandes misturadores, estrutura de embalagem, armazenamento e transporte. Conjuntamente, é necessária uma consultoria permanente de um nutricionista para assegurar uniformidade de nutrientes e níveis adequados com o uso de diferentes coprodutos, aliado a um em tempo de armazenamento altamente variável. Esse tipo de produção de alimento – via terceirização para ruminantes – visa reduzir a necessidade de mão de obra e investimentos, ao mesmo tempo em que produz produtos com qualidade padronizada. Em muitos casos, reduz os custos de produção nas fazendas com dificuldades em gestão.

Os resultados da silagem de TMR ensiladas em unidades comerciais de (50 a 1000 kg) apresentaram bom padrão de fermentação, independentemente do uso de aditivos. O armazenamento mais longo (60 dias) levou ao aumento da produção de gás durante a fermentação e aumento acentuado da estabilidade aeróbia da TMR após a abertura dos silos, permanecendo com cheiro e cor típicos de boa qualidade alimentar. Da mesma forma, o pH da silagem de TMR armazenada por 60 dias permaneceu estável durante todo o período de armazenamento (Tabela 1). Ainda, não houve efeito de aditivos na concentração de produtos de fermentação, porém, ao contrário das expectativas, a ensilagem de TMR não influenciou na digestibilidade da matéria seca, nem o conteúdo de nitrogênio amoniacal (Tabela 1).

Os dados mostram que o tempo mínimo de fermentação de 15 dias é insuficiente para garantir uma boa estabilidade de TMR e essa informação é importante para as indústrias interessadas nessa tecnologia, os quais devem considerar tal fato, de acordo com o perfil dos compradores. Muitas vezes, a silagem de TMR produzida é embalada e transportada para o cliente no mesmo dia, sendo mais propenso à deterioração se a unidade for aberta e não utilizada totalmente no mesmo dia. Empresas que vendem a TMR devem pensar em um fluxo de estoque que permita uma fermentação mais longa ou refermentação, antes de transportá-la ao consumidor.

Tabela 1 – Variáveis relacionadas ao TMR1 ensiladas sem aditivos (Controle) ou inoculadas com L. plantarum (LP) ou L. buchneri (LB), armazenadas por 15 ou 60 dias.

Controle

LB

LP

Variaveis2

15

60

15

60

15

60

P

Efeito3

pH

4,70a

4,51b

4,67a

4,39b

4,68a

4,29b

>0,01

S

MS, %

41,4

41,6

41,5

41,6

41,4

41,5

NS

DMSIV, %

84,4

84,0

83,9

83,9

83,2

83,8

NS

N-NH3, %NT

15,9

16,5

15,9

16,5

16,0

16,3

NS

Produção de gás durante a fermentação, L t-1 MS

385b

1.265a

342b

1.294a

353b

1.372a

>0,01

T

Estabilidade aeróbia, horas 64 >216 68 >216 50 >216 >0,01 T/A

PMS na estabilidade, %

18.4a

1b

18.1a

1.1b

23.3a

4.1b

>0,01

T

1 TMR composto por silagem de milho, silagem de azevém emurchecida, milho moído, farelo de soja, glúten de milho, ureia, minerais, bicarbonato de sódio.

2 DMSIV – digestibilidade in vitro da matéria seca; NT – nitrogênio total; PMS – perdas de matéria seca.

3 T – Efeito do tempo de armazenamento; A – efeito de aditivos.

Fonte: Adaptado de Schmidt et al., 2017.

Como considerações finais, os autores concluem que:

  • A ensilagem é a técnica mais viável para comercialização da TMR;
  • O uso de aditivos parece alterar levemente a qualidade e a preservação da TMR ensilada;
  • O marketing da ração em mistura total ainda é recente, mas com um forte potencial de crescimento para atender diferentes perfis de produtores.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Texto na integra está em:

SCHMIDT, P.; RESTELATTO, R.; ZOPOLLATTO, M. Ensiling total mixed rations – an innovative procedure. In: INTERNATIONAL SYMPOSIUM ON FORAGE QUALITY AND CONSERVATION, 5., July 16-17, 2017. Piracicaba. Proceedings…Piracicaba, 2017. p. 7-20. Disponível em:

<http://www.isfqcbrazil.com.br/proceedings/2017/international-symposium-on-forage-quality-and-conservation-2017.pdf> Acessado em 04-04-2018.

Daniel Junges

Daniel Junges

Daniel Junges é Consultor Técnico Comercial de bovinos de leite na Agroceres Multimix

VOCÊ TAMBÉM PODE CURTIR...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *