Geração Confinatto: Fibra fisicamente efetiva para bovinos de corte

Contextualizando o padrão das dietas dos confinamentos brasileiros

Na última década, o assunto “fibra efetiva” ganhou força entre técnicos e nutricionistas de campo, principalmente em função das mudanças que ocorreram no padrão de formulação das dietas, em que vimos decrescer consideravelmente a inclusão de volumoso na dieta. Sobre esse ponto de vista, discutir efetividade tornou-se mais importante do que discutir digestibilidade da fonte de volumoso. Claro que esta é importante, mas em um cenário de alta inclusão de concentrado, falar em segurança da dieta torna-se prioridade.

No passado, a baixa oferta de grãos e o custo “aparentemente” menor da forragem frente aos grãos justificava o padrão de dieta nos confinamentos brasileiros. O objetivo era formular uma “dieta de custo mínimo”, sendo que ainda não havia ou se conhecia a relação dessa dieta com a lucratividade ao sistema. O tempo (e os estudos) mostrou que o “custo” baixo da forragem era na realidade muito alto e que, o adensamento das dietas traria benefícios maiores em função do maior desempenho dos animais, invertendo o pensamento de dieta de custo mínimo para dieta de lucro máximo.  Vale ressaltar que, a evolução nas dietas de confinamento acompanhou também a evolução da produção de grãos no Brasil, aumentando substancialmente a oferta de grãos e permitindo a redução do volumoso nas mesmas.

Foto – Esquerda: dieta com maior proporção de volumoso. Direita: dieta com maior proporção de concentrado.

Com toda essa mudança e adensamento nutricional das dietas de confinamento veio também a necessidade de se estudar e conhecer mais sobre fibra fisicamente efetiva (FDNfe). Os aumentos observados na utilização de concentrado e redução de fibra nas dietas foram acompanhados com um maior surgimento de desordens digestivas.

Não podemos nunca esquecer que o ruminante, por natureza, possui uma câmara fermentativa que propicia um processo de simbiose do próprio animal com os microrganismos ali presentes e, para o bom funcionamento da mesma, é necessário a manutenção de algumas características internas do rúmen, entre elas, o pH ruminal. E isso só é possível com a presença de fibra fisicamente efetiva na dieta.

Respeitar as quantidades mínimas de fibra fisicamente efetiva na dieta nos permite reduzir de forma conservadora e equilibrada a quantidade de forragem na dieta, trazendo facilidade na logística e operacionalização da propriedade como um todo, visto que, a forragem é um alimento com alto teor de umidade e, portanto, de difícil armazenamento e distribuição. O volume ocupado por um material que contem valores próximos de 68% de água é muito grande, sendo necessário a construção de estruturas enormes e de grande investimento. Além disso, a umidade presente favorece a proliferação de microrganismos indesejáveis, atuando na deterioração do material. A inviabilidade do uso de dietas com altas inclusões de forragem fica fácil de entender quando pensamos em grandes empreendimentos, uma vez que, a área demandada para produção dessa forragem é muito grande, um espaço que poderia ser utilizada na fazenda para outras categorias animais.

Na atualidade, as fontes de fibras mais utilizadas nos confinamentos brasileiros são a silagem de milho e o bagaço de cana de açúcar; o principal grão utilizado é o milho e; os coprodutos mais utilizados são o caroço de algodão, polpa cítrica, casca de soja e torta de algodão (Millen et al., 2016).


Métodos para avaliação de fibra

Existem várias formas de avaliar a fibra de uma dieta, sendo o método tradicionalmente utilizado, o da análise química: FDN e FDA. Alguns nutricionistas preferem trabalhar com avaliações que compreendem a análise química apenas da fonte de forragem da dieta (FDN forragem), outros mais seguros preferem avaliar a FDN em relação à efetividade da fibra presente na dieta. Essa última forma se refere ao fato de avaliar-se a fração fibrosa que realmente estimula a ruminação. Podemos observar que a Fibra Fisicamente Efetiva (FDNfe) – nos últimos anos – tem sido a forma mais utilizada por nutricionistas em todo o Brasil para se avaliar fibra na dieta, daí a importância de se saber muito bem sua definição e uso.

No campo, é comum nos depararmos com 2 termos que podem trazer confundimento: Fibra Efetiva (FDNe) ou Fibra Fisicamente Efetiva (FDNfe). Os termos apesar de parecidos são muito diferentes em significado, sendo assim, temos que ter um cuidado especial ao se utilizar um ou outro. Na nutrição de vacas de leite utilizamos muito o termo “Fibra Efetiva”, sendo este um parâmetro diretamente relacionado com a gordura no leite. Condições ideais de fermentação e pH ruminal permite uma maior % de gordura no leite, ou seja, a fibra efetiva considera todos os fatores químicos e físicos que proporcionam as condições favoráveis para aumento da gordura do leite.

Outra terminologia, e assunto deste texto, é à “Fibra Fisicamente Efetiva”. Este termo, está relacionado ao tamanho de partícula, pensando no tamanho do alimento que compões o mat ruminal e teria papel de atuar no rúmen estimulando a ruminação e motilidade, estando diretamente relacionada à produção de saliva e controle do pH ruminal.

Na figura, podemos ver que o termo “fibra efetiva” é mais amplo e engloba tanto a FDN fisicamente efetiva, como também, outros fatores que não FDN, mas que exercem forte influência sobre a saúde ruminal. Esta figura também nos mostra que a mensuração química do FDN, por si só, não é interessante, uma vez que, parte do FDN não apresenta efetividade sobre o metabolismo ruminal.

Adaptado de Mertens (2001).

 

Importância da fibra fisicamente efetiva

Se pensarmos apenas na facilidade de manuseio e armazenamento do alimento, como vimos acima, estaríamos formulando dietas com 100% de concentrado, e pronto. No entanto, para o bom funcionamento do organismo do animal e, consequentemente, para a maximização do consumo e desempenho, a presença de fibra na dieta é importante.

A efetividade de uma dieta deve ser responsável por estimular a motilidade ruminal e a ruminação, o que por sua vez estimula a produção de saliva, a qual auxiliará manter o pH dentro da normalidade ruminal. O tamponamento do rúmen é um fator importante para que o crescimento microbiano não seja comprometido, permitindo assim, que esses façam a correta extração de energia e demais nutrientes dos alimentos. Essa simbiose entre animal e microrganismos é a base (e grande vantagem evolutiva) para o bom desempenho dos animais ruminantes, sendo, portanto, a principal vantagem biológica desses animais, por possuírem o rúmen como uma câmara fermentativa que permite tal processo.

No entanto, em situações em que há ausência de fibra efetiva e/ou níveis abaixo dos recomendados, ocorre o aparecimento de situações indesejáveis (distúrbios metabólicos), os quais irão deprimir o consumo de alimentos e, consequentemente, reduzir o desempenho dos animais. Uma vez que a saúde ruminal é comprometida, a simbiose entre ambos os indivíduos também será comprometida. Nesse cenário, usa-se o termo “Fibra Fisicamente Efetiva” (FDNfe) como sendo a forma mais correta de avaliar a fibra das dietas, uma vez que sua adoção permite inferir como será a saúde ruminal.

Uma vantagem da fibra fisicamente efetiva, que está atrelada ao pH ruminal, é a eficiência de síntese microbiana. Em situações de baixo pH ruminal, teremos um reduzido crescimento microbiano, o que interfere diretamente na eficiência de extração de nutrientes dos alimentos fornecidos na dieta. Já em valores de pH dentro da normalidade, obtidos com níveis adequados de fibra fisicamente efetiva, a eficiência de crescimento microbiano será maximizada, aumentando assim a utilização de energia proveniente da dieta.


Como avaliar a fibra fisicamente efetiva?

Visto a importância de se conhecer a FDN fisicamente efetiva, vamos então descobrir como tal deve ser realizada no campo para a sua avaliação.

Fonte: http://www.foragelab.com/Lab-Services/Forage-and-Feed/Particle-Size-Evaluation

Essa metodologia foi desenvolvida na Universidade da Pennsylvania (EUA), sendo a Penn State Particle Separator (PSPS) um método para medir o tamanho de partículas de forragens e dietas completas. O método inicial compreendia a utilização de duas peneiras com crivos de 19 e 8 mm e uma terceira parte que seria a bandeja para coleta do material mais fino que passou pelas peneiras presentes acima. O fator de efetividade de um alimento, ou dieta, compreende quanto do material (em porcentagem) ficou retido na peneira de 19 mm, somado ao material que ficou retido na peneira de 8 mm. Para se obter a FDN fisicamente efetiva basta então multiplicar a quantidade de material retido pelo teor de FDN apresentado na análise química.

Na prática, o método da Pen State visa simular o que ocorre dentro do rúmen do animal. Partículas acima de 8 mm participam efetivamente da composição e formação do mat ruminal. O matruminal é um emaranhado de partículas flutuantes recém ingeridas e partículas longas em processo de digestão microbiana. As duas principais funções do mat é o controle do pH ruminal pelo estimulo físico da motilidade do rúmen e, consequentemente, do processo de ruminação e subsequente salivação. Outra função do mat ruminal é reter partículas no rúmen, dando tempo suficiente para os microrganismos se colonizarem e iniciarem a digestão do material recém ingerido.

Aprimorando o método de FDNfe, o CNCPS (Cornell Net Carbohydrate Protein System), da Universidade de Cornell nos EUA, passou a considerar em seu sistema de avaliação de dietas a FDN fisicamente efetiva como a fração retida em uma peneira de 1,18 mm após resultados propostos por Mertens. Nesse sentido, no sistema da Penn State, se acrescenta mais ume peneira de 1,18 mm. No entanto, apesar dessa nova proposta, devemos nos atentar ao tempo de permanência de partículas retidas na peneira de 1,18 mm, que é menor do que as demais, sendo então um critério de cada nutricionista a forma de considerar a quantidade retida nessa peneira.

Para exemplificar:

Foto: Fernando Brito, Nutricionista de Bovinos de Corte na Agroceres Multimix.

De um total de 671 gramas colocados no sistema das peneiras, 40 gramas (6%) ficaram retidas na peneira de 19 mm; 483 gramas (72%) ficaram retidas na peneira de 8 mm; 135 gramas (20,1%) ficaram retidas na peneira de 1,18 mm e; observou-se apenas 13 gramas (1,9%) na bandeja. O FDN, na análise química em laboratório, foi 45%. Sendo assim, para encontrarmos o valor de FDNfe basta multiplicar a porcentagem retida nas peneiras de 19, 8 e 1,18 mm, pelo FDN da amostra em laboratório (0,45 * (6 + 72 + 20,1)). O valor de FDN fisicamente efetivo para essa silagem em questão foi de 44,1%.

Devemos entender que a grande quantidade de partículas retidas na peneira de 19 mm não é interessante, uma vez que, nesse caso, aumenta-se a probabilidade de seleção de partículas no cocho pelo animal, permitindo muito “resto” de alimento, podendo ser confundido como sobras de cocho. Por outro lado, partículas abaixo de 1,18 mm também são indesejáveis, uma vez que não apresentam efetividade, podendo causar distúrbios metabólicos. Portanto, a fibra efetiva desejável é a retida na peneira de 8 mm, na qual deve-se encontrar a maior quantidade de material retido. Abaixo segue os valores ideais para uma silagem de milho e dieta total.

 

PARTÍCULAS REMANESCENTES (%)

PENEIRA

SILAGEM DE MILHO

DIETA TOTAL

> 19 mm

3 a 8

2 a 8

> 8 mm

45 a 65

30 a 50

> 1,18 mm

30 a 40

30 a 50

Bandeja

< 5

≤ 20

Adaptado de heinrichs e Kononoff (2002).

Segundo a própria Penn State e outros pesquisadores Canadenses e Japoneses, o tamanho de partícula limiar que impacta o metabolismo de rúmen tem sido observado em outros trabalhos, indicando um valor maior que o 1,18 mm proposto por Mertens. Alguns estudos têm apontado para o valor de 4 mm como mais correto. Sabendo disso, alguns técnicos e nutricionistas de campo alteram a efetividade da peneira de 1,18 mm no campo, considerando apenas 50% de efetividade dessa peneira. No exemplo acima, a efetividade da peneira de 1,18 mm seria de 10,05% e não os 20,1% retido na peneira.


Como trabalhar a fibra fisicamente efetiva em dietas de animais confinados?

Após entender a importância da fibra fisicamente efetiva nas dietas de bovinos de corte confinados, temos valores que podem ser utilizados como padrão em algumas situações. Aqui, devemos pensar que, a análise deve ser feita com base em vários fatores, não existindo uma regra fixa de valor a ser trabalhado em dietas de animais confinados. Ao trabalharmos qualquer dieta em uma propriedade, devemos nos atentar a alguns fatores importantes, como: leitura de cocho, qualidade e tempo de mistura, uso de aditivos modificadores de eficiência alimentar  e, por fim, fibra fisicamente efetiva (FDNfe).

Assim, em propriedades que utilizam ionóforos, com o manejo de cocho bem feito, pode-se trabalhar com níveis toleráveis (limite) entre 5 a 8% de FDNfe. Do contrário, quando não se utiliza ionóforos e/ou o manejo de cocho não é dos melhores, por segurança, utiliza-se 20% de fibra fisicamente efetiva. Esse mesmo valor também é utilizado quando se busca maximizar a produção microbiana e utilização de carboidratos fibrosos na dieta. No caso de dietas de adaptação, o valor mais seguro a ser trabalhado é algo ao redor de 20%. Outras recomendações também podem ser encontradas na literatura como, por exemplo, para animais Nelore em que a recomendação de FDN fisicamente efetiva se encontra entre 10 a 18% (Goulart e Nussio, 2011).


Lembre-se!

A preocupação com a avaliação das dietas, principalmente, da fibra fisicamente efetiva, passa a ser obrigação dentro da atividade. Trabalhar com dietas mais concentradas é interessante, desde que o acompanhamento da mesma seja feito de forma consistente e eficiente, impedindo perdas em decorrência de distúrbios metabólicos que possam ocorrer.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Jose Rodolfo Carvalho

Jose Rodolfo Carvalho

José Rodolfo Carvalho é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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